Colaboradores
segunda-feira, 28 de março de 2011
Ivy-Marae
Não sigo os passos dos primeiros habitantes
É em sonho que persigo a terra-sem-males
A Pasárgada do Manuel
Nem faço questão de pau-de-sebo e amizade de rei
Nada de proezas inconsequentes
Ninguém me diagnosticou tango argentino
Quero escolher uma cama não tão larga
E o homem pra se deitar comigo
Então o amor a paz silenciosa e a vontade eterna
E banhos de mar, de rio (pode ser de chuveiro)
Onde o paraíso perdido de uma reles bocada?
Quero tanto mais da maçã!
O beijo suculento do corpo dele pesando em mim
Estou dispensando as sabedorias todas que Ele prometeu
Prefiro meu corpo nu
É em sonho que persigo a terra-sem-males
A Pasárgada do Manuel
Nem faço questão de pau-de-sebo e amizade de rei
Nada de proezas inconsequentes
Ninguém me diagnosticou tango argentino
Quero escolher uma cama não tão larga
E o homem pra se deitar comigo
Então o amor a paz silenciosa e a vontade eterna
E banhos de mar, de rio (pode ser de chuveiro)
Onde o paraíso perdido de uma reles bocada?
Quero tanto mais da maçã!
O beijo suculento do corpo dele pesando em mim
Estou dispensando as sabedorias todas que Ele prometeu
Prefiro meu corpo nu
quarta-feira, 23 de março de 2011
Lenha
Teus sons pela casa me excitam
Teus pés pisando a madeira
Eu queria beijar teus pés
Tuas mãos tilintando as coisas
Eu queria tuas mãos nas minhas coisas
Vais secar o chão e colocar as coisas nos lugares
Eu queria que tu cuidasses das umidades minhas
E me tirasses do meu lugar
Há uma aranha na parede, eu digo
Teus pés vêm pela escada
Tuas pernas
Tu vens inteiro de cenho franzido
(tua contrariedade sempre me excita)
Eu te aponto meus temores
Morta, dizes, está morta
Milhões de anos se passaram
O instinto e esta fome
Que direciona meus olhos e meu corpo na tua direção
São tão selvagens como o medo
Este desejo cru
De te saber este homem
O dono da casa
Eu queria tu dono de mim agora
Mas vou fazer o almoço
as feras estão mortas
o dia nublado e a cama ainda está desfeita
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Nada virtual
Lind@ garot@
estudiosa
não sai pra balada
trancada no quarto
poster da Lady
Alegria de vovó
lê, lê, escreve, escreve
misteriosa nas fotos do perfil
Mas
mamãe ocupada
papai não viu
e o bxu ppaum enguliu!!!
estudiosa
não sai pra balada
trancada no quarto
poster da Lady
Alegria de vovó
lê, lê, escreve, escreve
misteriosa nas fotos do perfil
Mas
mamãe ocupada
papai não viu
e o bxu ppaum enguliu!!!
domingo, 26 de setembro de 2010
Catedral
Em cada cidade eu teço um marco
- Aqui foi o dia, aquela vez, quando eu disse
quando tu
aqui foi quando eu senti
Uma criança muito loura correu em direção à mãe
mexendo no meu estômago
Qualquer vestido na vitrine
alguém com o cigarro no canto da boca
e eu penso
penso até doer
a calçada de repente transgressora
Sou a ambulante estrangeira
vendendo perguntas silenciosas
o coração indigente estendido
pedindo explicação
Então as torres da catedral.
(ele dissera pra eu ir ao quarto andar do hotel
como uma criança no ombro do pai
- mas eu sempre me guio pelas alturas)
(eu gosto quando o balão escapa das mãos
e voa voa
seguindo seu caminho de balão)
Três quadras
da urbanidade explicadinha do interior
as gentes e as vitrines simétricas
Sou mesmo pequena
meus longos cabelos crescem quando eu olho as torres
estreitando-se como meus olhos
fico assim um pouco
- se não fossem as torres eu era louca
fecho os olhos, tonteio
a banda militar sertanejando na praça
me viro, casais dançam e fotografam
Por fora estas torres ponteagudas cinzentas
por dentro rosas vermelhas e rococó
(sorrio pensando nele)
Santa Terezinha me observa na penumbra (estética)
- decifra-me
eu me devoro
em segundos de expectativa fria
Eu rezo e ela se enternece
posa para minha fotografia
- obrigada, vou colocar no meu altar
A senhorinha das chaves está falando falando, não ouço
- santa terezinha, meu coração indigente...
- minhas perguntas...
e deposito no altar
e deposito no altar
Na rua ainda a banda o algodão doce e as criancinhas louras
as imensas portas de madeira trancadas
a senhorinha manda eu ficar com deus
amém
amém
Tenho de voltar pelo mesmo caminho?
escolho o outro lado da rua
gentes e vitrinas simétricas
a catedral agora uma fotografia
a catedral agora uma fotografia
o prédio do hotel não tem torres
pra eu me encontrar
nem rosas vermelhas
(sorrio pensando nele)
mas é lá que ergo meu marco:
no quarto
na cama
no meu homem
de braços estendidos pra mim
sábado, 28 de agosto de 2010
Revelação
Eu virei para o outro lado
queria dormir
vi meu terço de contas ainda mornas
o que tenho pra me dizer?
Fechei os olhos
Meu corpo não
O que me escondo?
O livro de Inês sob o terço
Então eu soube
Eu ouvi bem me dizer
Entrou pela minha boca
Estreitando o peito e a garganta
Fiquei ali ouvindo
Entre vibrante e pasma
Querendo o sexo
Uma oração aos pés da cama
Queria caminhar
Invisível pelas ruas
Queria um mergulho escuro e sem fim
Queria tocar o sol
Mas fiquei ali
Me ouvindo
O livro de Inês o terço e a escuridão do quarto
silenciosos
E minha boca sussurrou
Eu amo este homem
Eu amo este homem
queria dormir
vi meu terço de contas ainda mornas
o que tenho pra me dizer?
Fechei os olhos
Meu corpo não
O que me escondo?
O livro de Inês sob o terço
Então eu soube
Eu ouvi bem me dizer
Entrou pela minha boca
Estreitando o peito e a garganta
Fiquei ali ouvindo
Entre vibrante e pasma
Querendo o sexo
Uma oração aos pés da cama
Queria caminhar
Invisível pelas ruas
Queria um mergulho escuro e sem fim
Queria tocar o sol
Mas fiquei ali
Me ouvindo
O livro de Inês o terço e a escuridão do quarto
silenciosos
E minha boca sussurrou
Eu amo este homem
Eu amo este homem
domingo, 18 de julho de 2010
Some lonesome valley
Queria poder ter a simplicidade
De cantar Peggy Gordon – minha querida,
Sem olhar no relógio e contar as letras
Minha voz sem pensar em significados
Queria segurar minha xícara de café quente
Diante da vidraça e meus olhos perdidos no horizonte
Ilimitado do tempo
Como nos filmes fazem as moças bem resolvidas
Às vezes me dou o deslumbramento instantâneo
De pensar o que pensaria Simone
E o que sentia Virginia
Entre o enrubescer da ousadia e a pergunta sobre felicidade
Pelo menos não perguntarão da minha
Ninguém pra discutir da minha vã existencialidade
Peggy Gordon (who are my darling?)
Tell to me the very reason
De cantar Peggy Gordon – minha querida,
Sem olhar no relógio e contar as letras
Minha voz sem pensar em significados
Queria segurar minha xícara de café quente
Diante da vidraça e meus olhos perdidos no horizonte
Ilimitado do tempo
Como nos filmes fazem as moças bem resolvidas
Às vezes me dou o deslumbramento instantâneo
De pensar o que pensaria Simone
E o que sentia Virginia
Entre o enrubescer da ousadia e a pergunta sobre felicidade
Pelo menos não perguntarão da minha
Ninguém pra discutir da minha vã existencialidade
Peggy Gordon (who are my darling?)
Tell to me the very reason
sexta-feira, 25 de junho de 2010
O poema russo
A palavra sem qualquer evidência
talvez a cor da imagem
os cheiros e sons e sabores que ela provoca
A palavra e suas coisas proteladas
franzindo nossa testa
incomodando os sentidos
Depois tudo segue o rumo
o poema nas vísceras
o resto é impressão
talvez a cor da imagem
os cheiros e sons e sabores que ela provoca
A palavra e suas coisas proteladas
franzindo nossa testa
incomodando os sentidos
Depois tudo segue o rumo
o poema nas vísceras
o resto é impressão
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Isla
O quarto está cheio
de um silêncio que nem tua fala interrompe
um silêncio gritante
vozes de uma auto-explicação
tão ridícula como seria esta fotografia
agora
no quarto cheio de armadilhas
eu aqui com minhas vírgulas e meus entretantos
tu com o ar condicionado e ainda de sapatos
Vai chegar a hora do telefonema
E chaves e falta da agenda
Que fizemos nestas duas horas antes do café?
Enchemos o quarto deste silêncio gritante
Que implora por uma audiência
e aponta pra si mesmo
como a tevê numa madrugada estrangeira
tão desconcertante não entender
o que ele diz de mim
de um silêncio que nem tua fala interrompe
um silêncio gritante
vozes de uma auto-explicação
tão ridícula como seria esta fotografia
agora
no quarto cheio de armadilhas
eu aqui com minhas vírgulas e meus entretantos
tu com o ar condicionado e ainda de sapatos
Vai chegar a hora do telefonema
E chaves e falta da agenda
Que fizemos nestas duas horas antes do café?
Enchemos o quarto deste silêncio gritante
Que implora por uma audiência
e aponta pra si mesmo
como a tevê numa madrugada estrangeira
tão desconcertante não entender
o que ele diz de mim
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Um pedacinho do bolo
Seis da manhã
a janela me desperta para outro sonho:
a neblina esconde as razões do relógio
Aqui dentro também
serração, o sorriso do gato
Sua tolinha! Você está atrasada.
Eu? Eu sou a errada.
Quero asas
e um pouso suave
Mas esqueça o chá
tenho outros planos
e uma conversa com a senhora do hookah
a janela me desperta para outro sonho:
a neblina esconde as razões do relógio
Aqui dentro também
serração, o sorriso do gato
Sua tolinha! Você está atrasada.
Eu? Eu sou a errada.
Quero asas
e um pouso suave
Mas esqueça o chá
tenho outros planos
e uma conversa com a senhora do hookah
quinta-feira, 29 de abril de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
Um poema para o poeta
Ei, Charles, você foi esperto!
Não quis botar o pau no fogo
e escolheu uma mulher boa
delicada, deliciosa e magnifíca
Cara, deixa eu te dizer -
embora isso nem importe mais, não é mesmo?
Eu já fui dessas
mas agora estou recusando os espertos
Agora chama o garçom
e pede dois do mesmo
acho que ainda não estamos no ponto
de falar sobre o que desconhecemos
Não quis botar o pau no fogo
e escolheu uma mulher boa
delicada, deliciosa e magnifíca
Cara, deixa eu te dizer -
embora isso nem importe mais, não é mesmo?
Eu já fui dessas
mas agora estou recusando os espertos
Agora chama o garçom
e pede dois do mesmo
acho que ainda não estamos no ponto
de falar sobre o que desconhecemos
quinta-feira, 11 de março de 2010
Poetisa de verdade
Adélia temperando a comida em fogo brando
os líquidos suculentos, os cheiros que dançam na cozinha maculada
Adélia olhando pela vidraça, a mão movimentando a colher primitivamente
e a mão de Deus, as flores, as pessoas, os carros
Quando as narinas e o paladar - e ela prova os sabores - sabem que é chegada a hora
Adélia larga a colher, apaga o fogo, estende a toalha.
Chama a família.
Manda servir.
E vai refletir poeticamente na sala ao lado
os sabores da janela que lhe ficaram na boca
os líquidos suculentos, os cheiros que dançam na cozinha maculada
Adélia olhando pela vidraça, a mão movimentando a colher primitivamente
e a mão de Deus, as flores, as pessoas, os carros
Quando as narinas e o paladar - e ela prova os sabores - sabem que é chegada a hora
Adélia larga a colher, apaga o fogo, estende a toalha.
Chama a família.
Manda servir.
E vai refletir poeticamente na sala ao lado
os sabores da janela que lhe ficaram na boca
Romance
Eu preciso de romance
digam o que quiserem
Quero margaridas na manhã seguinte
e um olhar terno na próxima noite
Preciso que me leve no topo à noite
para olhar as luzes da cidade
Quero contar as estrelas com quatro mãos
Preciso daqueles bilhetinhos com duas ou três palavras
sem assinaturas, sem desculpas
Nenhum amigo que recomende rosas vermelhas
Apenas verdades românticas
Ninguém que precise de conselhos
apenas me encare, encare-se
olhos nos olhos
fogo nos olhos
leveza nas mãos firmes
e beijos sinceros
Eu preciso de romance
digam o que quiserem
digam o que quiserem
Quero margaridas na manhã seguinte
e um olhar terno na próxima noite
Preciso que me leve no topo à noite
para olhar as luzes da cidade
Quero contar as estrelas com quatro mãos
Preciso daqueles bilhetinhos com duas ou três palavras
sem assinaturas, sem desculpas
Nenhum amigo que recomende rosas vermelhas
Apenas verdades românticas
Ninguém que precise de conselhos
apenas me encare, encare-se
olhos nos olhos
fogo nos olhos
leveza nas mãos firmes
e beijos sinceros
Eu preciso de romance
digam o que quiserem
sábado, 6 de março de 2010
There is a pleasure in the pathless woods
There is a pleasure in the pathless woods
Meus olhos fechados em Madison County
mas não é a Imes Bridge que eu vejo
onde as cinzas foram espalhadas
nem lembranças guardadas numa caixa
um livro dedicado a F
nem as velas na borda da banheira
e o vestido vermelho do adeus
os silêncios e as pontes
pretextos para arrastar o tempo
Há um sinal vermelho na estrada
e um instante
que atravessa a vida
A mão segura a maçaneta
chove
no retrovisor embaçado um pêndulo
avisando do tempo
A mão aperta a maçaneta
chora
e um caminho desconhecido e possível
fica pra trás
Meus olhos fechados em Madison County
mas não é a Imes Bridge que eu vejo
onde as cinzas foram espalhadas
nem lembranças guardadas numa caixa
um livro dedicado a F
nem as velas na borda da banheira
e o vestido vermelho do adeus
os silêncios e as pontes
pretextos para arrastar o tempo
Há um sinal vermelho na estrada
e um instante
que atravessa a vida
A mão segura a maçaneta
chove
no retrovisor embaçado um pêndulo
avisando do tempo
A mão aperta a maçaneta
chora
e um caminho desconhecido e possível
fica pra trás
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Da imprescindível razão de ser
Lá. Bem adiante de onde vêem meus olhos, alheia à cidade. E bem ali, aqui, na sombra do maracujá enroscando-se nas grades da sacada, está a razão. E não é um sapato nem uma casa de pedra encravada na montanha. É tão convexa, estabelecida entre meus dedos, tão e tanto e tudo, que parece que me falta o ar, que tenho fome, e sede, e frio. E tudo o mais parece desnecessário e sem sentido. Dentro de mim ela morre, e mesmo assim flutua e pesa.
O ar continua entrando em meus pulmões, eu acordo de manhã, eu me deito à noite. Mas entre essas coisas que não posso deixar de fazer, tudo é oco. Rejeito todas essas sensações que eram para ser prazer – o gosto de uma castanha e mesmo o som que ela faz ao cair na grama, nos dias de sol em que o vento cochicha entre meus cabelos. E o sol, a grama e a castanha então me dizem na voz do vento – que é só disso que eles sabem: do sangue que corre em minhas veias, do oxigênio, do calor na minha pele, da chuva, da terra. E com eles eu desprezo o que não me basta.
Pra que a mordida na maçã? Quando minha boca reconhece o supérfluo, a língua repele a insipidez. O sabor me fere como um aviso de morte. E a rotina prossegue como um recado: as coisas não estão no seu lugar. Há uma mancha desbotada na mesa, um vazio do que devia estar ali. Há um silêncio no canto da sala, no quarto uma sombra fugidia que se esconde quando eu abro a porta e que pesa em mim como se subisse nos meus ombros. E as coisas viram cinza como a tumba em seu segredo revelado.
Então a língua cala, a pele dorme, o corpo se fecha – pra que azul, roxo, doce, amargo, quente, líquido, arrepio? Posso até sorrir, a tristeza tão esticada na curva que nega a si mesma. E não faz diferença. Noite? É tudo uma questão de simplesmente prosseguir, e engolir a maçã. Sem gozo.
Sem véspera, a boca seca. Sem respiração suspensa, o estômago não contrai pra despertar as mãos. Sem a gota de suor que desce na nuca, sem o frêmito. Nenhum movimento em direção à vida. Nenhuma pergunta estarrecida diante do óbvio. De olhos fechados, meu coração continua, meus pés recebem o que lhes cabe, meu corpo estático caminha.
Amanhã só o sol, medido em horas, em eterna consecução, mesmo o fim marcado em milênios. Mas que diferença faz o tempo a quem não espera? É apenas um som repetitivo escarnecendo. Importa o agora, me dizem os donos da razão. O agora é uma fração do antegozo e só serve aos que saboreiam, mas eu não respondo. Porque estou morta às perguntas e aos sabores.
A dúvida calada em meu peito nem é minha, a sombra do maracujá já me disse tudo. E aquele carro mal estacionado. O prédio. O vazio, uma corda serpenteando as ruas, as beiradas, os centros, minhas pernas, meus pulmões. Eu podia gritar, mas então eu ouviria. E eu não quero me acordar e enxergar de novo que ela morre dentro de mim.
O ar continua entrando em meus pulmões, eu acordo de manhã, eu me deito à noite. Mas entre essas coisas que não posso deixar de fazer, tudo é oco. Rejeito todas essas sensações que eram para ser prazer – o gosto de uma castanha e mesmo o som que ela faz ao cair na grama, nos dias de sol em que o vento cochicha entre meus cabelos. E o sol, a grama e a castanha então me dizem na voz do vento – que é só disso que eles sabem: do sangue que corre em minhas veias, do oxigênio, do calor na minha pele, da chuva, da terra. E com eles eu desprezo o que não me basta.
Pra que a mordida na maçã? Quando minha boca reconhece o supérfluo, a língua repele a insipidez. O sabor me fere como um aviso de morte. E a rotina prossegue como um recado: as coisas não estão no seu lugar. Há uma mancha desbotada na mesa, um vazio do que devia estar ali. Há um silêncio no canto da sala, no quarto uma sombra fugidia que se esconde quando eu abro a porta e que pesa em mim como se subisse nos meus ombros. E as coisas viram cinza como a tumba em seu segredo revelado.
Então a língua cala, a pele dorme, o corpo se fecha – pra que azul, roxo, doce, amargo, quente, líquido, arrepio? Posso até sorrir, a tristeza tão esticada na curva que nega a si mesma. E não faz diferença. Noite? É tudo uma questão de simplesmente prosseguir, e engolir a maçã. Sem gozo.
Sem véspera, a boca seca. Sem respiração suspensa, o estômago não contrai pra despertar as mãos. Sem a gota de suor que desce na nuca, sem o frêmito. Nenhum movimento em direção à vida. Nenhuma pergunta estarrecida diante do óbvio. De olhos fechados, meu coração continua, meus pés recebem o que lhes cabe, meu corpo estático caminha.
Amanhã só o sol, medido em horas, em eterna consecução, mesmo o fim marcado em milênios. Mas que diferença faz o tempo a quem não espera? É apenas um som repetitivo escarnecendo. Importa o agora, me dizem os donos da razão. O agora é uma fração do antegozo e só serve aos que saboreiam, mas eu não respondo. Porque estou morta às perguntas e aos sabores.
A dúvida calada em meu peito nem é minha, a sombra do maracujá já me disse tudo. E aquele carro mal estacionado. O prédio. O vazio, uma corda serpenteando as ruas, as beiradas, os centros, minhas pernas, meus pulmões. Eu podia gritar, mas então eu ouviria. E eu não quero me acordar e enxergar de novo que ela morre dentro de mim.
sábado, 28 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Inteligência interpessoal
Bom dia gritava alto a mulher
Batendo palmas entre as grades
Decerto pra pedir
Um casaco pesado nesse dia de mormaço
Decerto pra se resguardar da solidão e do desprezo
O menino teimava em se virar
A mãe puxando-o pela mão
Decerto tantas vezes pedindo:
Responde fulaninho
Então ele gritou pra mim
Apressada na rua
Acenando sua mãozinha bom-dia bom-dia
Digo-lhe a verdade?
Faço meu melhor sorriso
Quero ser inocente
Bom-dia querido bom-dia
E sigo apressada
Batendo palmas entre as grades
Decerto pra pedir
Um casaco pesado nesse dia de mormaço
Decerto pra se resguardar da solidão e do desprezo
O menino teimava em se virar
A mãe puxando-o pela mão
Decerto tantas vezes pedindo:
Responde fulaninho
Então ele gritou pra mim
Apressada na rua
Acenando sua mãozinha bom-dia bom-dia
Digo-lhe a verdade?
Faço meu melhor sorriso
Quero ser inocente
Bom-dia querido bom-dia
E sigo apressada
terça-feira, 24 de novembro de 2009
O sonho de Zhuang Zi
Então ele sorriu
Disse aquilo tudo e sorriu
Assim: sorriu
E naqueles cinco segundos estáticos
o sorriso dele sacudindo ela
passou o antes num filme
Cinco segundos
dentro dela uma contagem agressiva
cardíaca
Então ela pensou
despertando do sorriso:
eu sou essa mulher?
"Esse o resultado da transformação das coisas"
Disse aquilo tudo e sorriu
Assim: sorriu
E naqueles cinco segundos estáticos
o sorriso dele sacudindo ela
passou o antes num filme
Cinco segundos
dentro dela uma contagem agressiva
cardíaca
Então ela pensou
despertando do sorriso:
eu sou essa mulher?
"Esse o resultado da transformação das coisas"
sábado, 21 de novembro de 2009
A mais poder
Aqui fazia temporal há uma semana com previsões de “um novo ciclone extratropical junto à costa gaúcha”. Portanto dias sem caminhada e sem sol na sacada do apartamento. O antigo ainda, a mudança adiada para uma semana antes do Natal. Essa era uma das dificuldades entre tantas, entre as de alongamento e músculos pedindo pra trabalhar. “Todo cuidado era pouco” com a mente, exigida no lugar deles nos últimos três anos.
Sobre o equilíbrio, ela, que tinha labirintite, tinha escrito há pouco em email para um “razão do ‘des’”: “equilíbrio se faz com dois pés no chão, pesos iguais dos dois lados”, mas ela nem estava falando disso, mas do seu desequilíbrio mesmo, alterado por problemas no lado esquerdo, pela falta de “um lado”, como ela disse. E a falta de ar já tinha sido diagnosticada desde 2003 como “angústia” e desde então aparecia pouco, bem pouco, que o peito então aberto já repleto de anticorpos.
“Tudo agora acontecia em etapas”, com a autoproibição de pensamentos futuros: em horas, com a escada de incêndio pendurada na manhã seguinte. Mentira essa história de que aparecia pouco, era só uma questão de já ter o diagnóstico e tomar a cápsula do autorrecondicionamento. Às vezes uma tragada do ar oceânico resolvia, mas agora que não tinha carro usava um charuto, com resultados bem próximos.
Então o viajante coloca uma agulha entre as linhas. Espetada aqui, nas calçadas de Porto Alegre cobertas de flores roxas, que ela pisa diariamente no trajeto até o Zaffari – porque entre o apartamento até a parada do Universitária, na Osvaldo, só há as marcas da passagem daqueles que são a maior população do Bom Fim, talvez com um tanto mais de aprumo do que os guaipecas italianos, e a imensa sombra da sinagoga (ao mesmo tempo em que ela pensa o que iam dizer disso, já que ela gosta da presença do prédio, mesmo em dias que tem de desviar dos seguranças e diminui o passo pra ouvir o sotaque do rabino, a quem ela deseja secretamente fazer uma pergunta, ela lembra: te contei que sou do interior?) – espezinhada, cutucada, ela emudece.
Ele deve saber, ela sorri, que eu não era daqui. (Mas parece que ele não sabe do pequeno mundo de seus pés e do ilimitado espaço de suas vontades.) E diz de calçadas e flores roxas propositadamente, para que ele leia o poema do dia primeiro de janeiro e entenda. Passa os dias seguintes àquele email pensando naquela regra de ne pas penser le future. Não tem o que dizer pra ele de Porto e de BH e de futuro. Que ele riria de sua inocência, como ri o amigo de suas anacrônicas dúvidas sobre a moral judaico-cristã e maçãs.
Só uma igreja em Valle Noncello? Ela sabe que um dia ele pediu ao pai que apagasse aquela imagem horrível da parede, porque pra ele era só isso: um desenho, que fazia os amigos lhe dizerem que ele estava entre os bons, perdoado portanto. Mas afinal perdoado de quê? Mas é bom que ela pare de falar do que não conhece, nesses tempos de suspeitas.
Ela tinha consciência disso, de seu profundo desconhecimento. De todas as coisas que ele certamente olhava agora com olhos desconfiados, de quem não tem o sonho de se ajoelhar no jardim de Giverny e beijar o chão por onde pisou o pintor de seus sonhos. Porque seus sonhos, e ela adquirira esse direito, são todos pincelados por Monet. É possível dizer que sonha impressionista, impressionada que é de tudo. O viajante, ela pensa, é um menino que ainda tem a mesma vontade daquele aprendiz de jardineiro, oferecendo-se pra plantar onze-horas, como quem se sinaliza na terra. Hoje poemas nos quintais do mundo. Então ela fecha os olhos e vê aquele menino jardineiro de trouxa às costas, percorrendo caminhos, já não mais no chafsaidcar da avó holliywoodiana, mas por seus próprios pés, catando uma a uma as pedrinhas deixadas pelo pai na rota inversa, e quer perguntar pra ele: que pedrinha é essa que tem em mãos agora, “velhinho apressado”?
Ela é da opinião que não é melhor correr como os outros. Recém aprendia a calma, e sua caminhada vibrante escondia um pensamento vagaroso, e ultimamente mais circular que o trajeto do Parcão. Ficou com vontade de dizer pra ele, agora mesmo, que parasse de pensar em apoplexias e corvos de outono. Que trocasse tangos argentinos e tragédias gregas por óperas italianas. Ela mesma estava chateada por ter perdido Tosca no Met Ópera, ali no Cine Moinhos, imagina a possibilidade não de um Metropolitan de verdade, mas de um Teatro dell’Opera di Roma! Apoplexia catártica!
Os olhos dele! Ela lembra de pedir com alegria infantil: se fores à casa de Monet, olha tudo pra mim, e os espetáculos de flamenco no Teatro Poliorama em Barcelona, Castle Rock e Eilean Donan Castle, na Escócia (e me traz o cheiro do lodo pra eu por no meu sonho, e, por favor, não olhe nada novo, nem entre, eu só preciso dos aromas seculares), há tanto ainda pra ver, e cheirar, e beijar, e por a mão do jeito brasileiro.
Capri. É mais perto, ela pensa. Se ele for a Capri, ela faria uma lista de coisas pra serem olhadas, que poderia ser resumido em ‘sinta tudo’. De repente ela se dá conta que “divieto sostare” é uma ordem que bem cabe a ele, correndo de guaipecas italianos ou seja lá o que for que eles simbolizem. Só que esse negócio de metáforas e metonímias (talvez uma sinédoque dependendo da escala) é bem coisa dela, que usa mais que assobio pra disfarçar. Em vez de treinar rodopios e chutes certeiros no branco com pintas pretas, ela costuma dançar no tapete da sala, quando as crianças não estão em casa, chove ou é noite, ou o coração pede que ela dê um jeito de desviar as idéias para o corpo, um corpo sozinho dançando na penumbra. E ela só para quando ele cansa demais pra voltar aos pensamentos. Às vezes o senso de ridículo ou a tristeza ou a solidão chegam antes e desligam o cd player. Raras vezes uma idéia aparece, que não é triste nem solitária e que pode ser aproveitada na tese, então ela volta ao computador.
E assim ela trafega entre calçadas roxas, telas de computador e tapetes, esperando. Uma banca de doutores que lhe aprove, um anjo torto que lhe diga “vai”, alguém que não seja virtual. Por causa da proibição, no entanto, tudo isso está dobrado na gaveta e agora ela só espera o verão, que os charutos estão acabando. O amigo dela, aquele do email do des-equilíbrio, tem o desejo de fugir daqui no primeiro pouso da andorinha, mas ele vive dizendo que está ficando velho demais pra isso e praquilo. Ela ama o verão e observa com gosto a gota que lhe escorre entre os seios quando o sol não respeita o divieto e estaciona nas terras meridionais do Brasil, ignorando a linha do Equador. Tão primitivo, ela pensa, e se regozija de ser só uma mulher.
E tu, ela pensa, virás com as andorinhas. Nada de neblinas no janeiro de Porto Alegre. Aqui, “outrora” é uma palavra que soi estar nos textos de Assis Brasil, e olhe lá! Secar duas vezes os joelhos? Bem capaz! ela exclama – antes disso, já estarás suado de novo, então é melhor ignorar essas pequenezas de umidade. Hosana in excelsis será o ar-condicionado!
O El-niño estragou a safra de amoras pretas em Três Forquilhas, no sítio dos pais dela. Será que teremos geléia suficiente pra lhe dar um pote e substituir a de mirtilo? ela pensa. E, como as coisas práticas da vida não respeitam as metáforas e as danças no tapete (só os desenhos no tapete, como o de Henry James), então ela lembrou que tem de ir à feira comprar manteiga. E a gata encolhida no sofá lembrou-a do verão que tarda e do anúncio de temporais, e das roupas na máquina, e da louça que ficou na pia da festa do aniversário do filho e da cama que às três da tarde está emaranhada.
Tanto tempo enrolando brigadeiros, por que não comemos de colher? Ora, ela pensa, há que se fazer algo pra justificar a espera, como não desligar o motor em local proibido, e ficar batendo no volante e olhando para os lados, como quem procura o passageiro perdido. Nem todos têm o olhar que se desvia para pedrinhas ao acaso (ou nem tanto), amplos pátios, cancelas e folhas amarelas, e cores de guaipecas. Nem todos sabem olhar pelos outros com olhos de afeto alheio. É mais fácil ignorar a placa.
Ela pensa no gosto de crostini de farina integrale e de mirtilos: poderia ele incluir na lista o sabor das coisas de lá? Se fosse uma história, escreveria uma carta pra ele que começaria assim: Menino-jardineiro, corredor-rural, poeta-viajante, acaba de bater um raio de sol na janela deste apartamento... Logo logo pousarão as andorinhas. Voa, e vai largando as tuas pedrinhas, que logo darás o maior chute em rodopio naquele branco de pintas pretas.
Sobre o equilíbrio, ela, que tinha labirintite, tinha escrito há pouco em email para um “razão do ‘des’”: “equilíbrio se faz com dois pés no chão, pesos iguais dos dois lados”, mas ela nem estava falando disso, mas do seu desequilíbrio mesmo, alterado por problemas no lado esquerdo, pela falta de “um lado”, como ela disse. E a falta de ar já tinha sido diagnosticada desde 2003 como “angústia” e desde então aparecia pouco, bem pouco, que o peito então aberto já repleto de anticorpos.
“Tudo agora acontecia em etapas”, com a autoproibição de pensamentos futuros: em horas, com a escada de incêndio pendurada na manhã seguinte. Mentira essa história de que aparecia pouco, era só uma questão de já ter o diagnóstico e tomar a cápsula do autorrecondicionamento. Às vezes uma tragada do ar oceânico resolvia, mas agora que não tinha carro usava um charuto, com resultados bem próximos.
Então o viajante coloca uma agulha entre as linhas. Espetada aqui, nas calçadas de Porto Alegre cobertas de flores roxas, que ela pisa diariamente no trajeto até o Zaffari – porque entre o apartamento até a parada do Universitária, na Osvaldo, só há as marcas da passagem daqueles que são a maior população do Bom Fim, talvez com um tanto mais de aprumo do que os guaipecas italianos, e a imensa sombra da sinagoga (ao mesmo tempo em que ela pensa o que iam dizer disso, já que ela gosta da presença do prédio, mesmo em dias que tem de desviar dos seguranças e diminui o passo pra ouvir o sotaque do rabino, a quem ela deseja secretamente fazer uma pergunta, ela lembra: te contei que sou do interior?) – espezinhada, cutucada, ela emudece.
Ele deve saber, ela sorri, que eu não era daqui. (Mas parece que ele não sabe do pequeno mundo de seus pés e do ilimitado espaço de suas vontades.) E diz de calçadas e flores roxas propositadamente, para que ele leia o poema do dia primeiro de janeiro e entenda. Passa os dias seguintes àquele email pensando naquela regra de ne pas penser le future. Não tem o que dizer pra ele de Porto e de BH e de futuro. Que ele riria de sua inocência, como ri o amigo de suas anacrônicas dúvidas sobre a moral judaico-cristã e maçãs.
Só uma igreja em Valle Noncello? Ela sabe que um dia ele pediu ao pai que apagasse aquela imagem horrível da parede, porque pra ele era só isso: um desenho, que fazia os amigos lhe dizerem que ele estava entre os bons, perdoado portanto. Mas afinal perdoado de quê? Mas é bom que ela pare de falar do que não conhece, nesses tempos de suspeitas.
Ela tinha consciência disso, de seu profundo desconhecimento. De todas as coisas que ele certamente olhava agora com olhos desconfiados, de quem não tem o sonho de se ajoelhar no jardim de Giverny e beijar o chão por onde pisou o pintor de seus sonhos. Porque seus sonhos, e ela adquirira esse direito, são todos pincelados por Monet. É possível dizer que sonha impressionista, impressionada que é de tudo. O viajante, ela pensa, é um menino que ainda tem a mesma vontade daquele aprendiz de jardineiro, oferecendo-se pra plantar onze-horas, como quem se sinaliza na terra. Hoje poemas nos quintais do mundo. Então ela fecha os olhos e vê aquele menino jardineiro de trouxa às costas, percorrendo caminhos, já não mais no chafsaidcar da avó holliywoodiana, mas por seus próprios pés, catando uma a uma as pedrinhas deixadas pelo pai na rota inversa, e quer perguntar pra ele: que pedrinha é essa que tem em mãos agora, “velhinho apressado”?
Ela é da opinião que não é melhor correr como os outros. Recém aprendia a calma, e sua caminhada vibrante escondia um pensamento vagaroso, e ultimamente mais circular que o trajeto do Parcão. Ficou com vontade de dizer pra ele, agora mesmo, que parasse de pensar em apoplexias e corvos de outono. Que trocasse tangos argentinos e tragédias gregas por óperas italianas. Ela mesma estava chateada por ter perdido Tosca no Met Ópera, ali no Cine Moinhos, imagina a possibilidade não de um Metropolitan de verdade, mas de um Teatro dell’Opera di Roma! Apoplexia catártica!
Os olhos dele! Ela lembra de pedir com alegria infantil: se fores à casa de Monet, olha tudo pra mim, e os espetáculos de flamenco no Teatro Poliorama em Barcelona, Castle Rock e Eilean Donan Castle, na Escócia (e me traz o cheiro do lodo pra eu por no meu sonho, e, por favor, não olhe nada novo, nem entre, eu só preciso dos aromas seculares), há tanto ainda pra ver, e cheirar, e beijar, e por a mão do jeito brasileiro.
Capri. É mais perto, ela pensa. Se ele for a Capri, ela faria uma lista de coisas pra serem olhadas, que poderia ser resumido em ‘sinta tudo’. De repente ela se dá conta que “divieto sostare” é uma ordem que bem cabe a ele, correndo de guaipecas italianos ou seja lá o que for que eles simbolizem. Só que esse negócio de metáforas e metonímias (talvez uma sinédoque dependendo da escala) é bem coisa dela, que usa mais que assobio pra disfarçar. Em vez de treinar rodopios e chutes certeiros no branco com pintas pretas, ela costuma dançar no tapete da sala, quando as crianças não estão em casa, chove ou é noite, ou o coração pede que ela dê um jeito de desviar as idéias para o corpo, um corpo sozinho dançando na penumbra. E ela só para quando ele cansa demais pra voltar aos pensamentos. Às vezes o senso de ridículo ou a tristeza ou a solidão chegam antes e desligam o cd player. Raras vezes uma idéia aparece, que não é triste nem solitária e que pode ser aproveitada na tese, então ela volta ao computador.
E assim ela trafega entre calçadas roxas, telas de computador e tapetes, esperando. Uma banca de doutores que lhe aprove, um anjo torto que lhe diga “vai”, alguém que não seja virtual. Por causa da proibição, no entanto, tudo isso está dobrado na gaveta e agora ela só espera o verão, que os charutos estão acabando. O amigo dela, aquele do email do des-equilíbrio, tem o desejo de fugir daqui no primeiro pouso da andorinha, mas ele vive dizendo que está ficando velho demais pra isso e praquilo. Ela ama o verão e observa com gosto a gota que lhe escorre entre os seios quando o sol não respeita o divieto e estaciona nas terras meridionais do Brasil, ignorando a linha do Equador. Tão primitivo, ela pensa, e se regozija de ser só uma mulher.
E tu, ela pensa, virás com as andorinhas. Nada de neblinas no janeiro de Porto Alegre. Aqui, “outrora” é uma palavra que soi estar nos textos de Assis Brasil, e olhe lá! Secar duas vezes os joelhos? Bem capaz! ela exclama – antes disso, já estarás suado de novo, então é melhor ignorar essas pequenezas de umidade. Hosana in excelsis será o ar-condicionado!
O El-niño estragou a safra de amoras pretas em Três Forquilhas, no sítio dos pais dela. Será que teremos geléia suficiente pra lhe dar um pote e substituir a de mirtilo? ela pensa. E, como as coisas práticas da vida não respeitam as metáforas e as danças no tapete (só os desenhos no tapete, como o de Henry James), então ela lembrou que tem de ir à feira comprar manteiga. E a gata encolhida no sofá lembrou-a do verão que tarda e do anúncio de temporais, e das roupas na máquina, e da louça que ficou na pia da festa do aniversário do filho e da cama que às três da tarde está emaranhada.
Tanto tempo enrolando brigadeiros, por que não comemos de colher? Ora, ela pensa, há que se fazer algo pra justificar a espera, como não desligar o motor em local proibido, e ficar batendo no volante e olhando para os lados, como quem procura o passageiro perdido. Nem todos têm o olhar que se desvia para pedrinhas ao acaso (ou nem tanto), amplos pátios, cancelas e folhas amarelas, e cores de guaipecas. Nem todos sabem olhar pelos outros com olhos de afeto alheio. É mais fácil ignorar a placa.
Ela pensa no gosto de crostini de farina integrale e de mirtilos: poderia ele incluir na lista o sabor das coisas de lá? Se fosse uma história, escreveria uma carta pra ele que começaria assim: Menino-jardineiro, corredor-rural, poeta-viajante, acaba de bater um raio de sol na janela deste apartamento... Logo logo pousarão as andorinhas. Voa, e vai largando as tuas pedrinhas, que logo darás o maior chute em rodopio naquele branco de pintas pretas.
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