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£.lectra

Colaboradores

  • Ana Munari
  • Elektra

terça-feira, 24 de novembro de 2009

£.lectra: O sonho de Zhuang Zi

£.lectra: O sonho de Zhuang Zi
Postado por Elektra
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Ana Cláudia Munari

Criar seu atalho
Desinventei uma vida pra mim assim: sou a mulher deste homem faço a feira faço a cama e me desfaço

Texto-me

Era uma vez - narro-me - uma mulher que me tomou tão completamente que me perdi de mim. E vivi eu mesma pra sempre.

Penélope

Demorei trinta e seis anos pra saber o norte de meu corpo. Pra que direção devem abrir meus braços? Pra onde se volta minha face? Agora todos os meus ângulos têm um destino. A curva de meus quadris, o arco de minhas pernas, o centro de meu ventre, as ondas de meus cabelos, o círculo de meus braços, tudo se sabe. Posso acordar de manhã e dizer-me de meus fins, que o corpo espere, que a alma se tranqüilize, chega logo o dia pra que se veio. Eu vim pra isso. Cheguei cá onde o sol me toca, e agora que eu sei as serventias minhas, quero aprender a languidez dos que sabem, dos que esperam, porque já conhecem sua sina. Eu sei a minha.

Morfologia

Inerte e amordaçada, a caneta aquece em minhas mãos e me rouba de mim. Quero reeditar-me, mas primeiro tua palavra-chave, senha da minha escritura. Perdi o signo do envolvimento, e o texto é uma relação: a palavra inteira quando esvaziada na outra. Então procuro formas de transformar meus sentidos e escolho as palavras como quem escolhe sonhos. Eu preciso me des-envolver nesta tua trama. Eu preciso me desenvolver?

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Capítulo 10 – Gênesis

Eu vi a face de Malitzia no momento em que ele deu a ordem. Os olhos dela escureceram na fração de segundo entre o reconhecimento e a obediência. Eu pude sentir o poder das palavras se condensando no ar do quarto. E era ela ali. Nem Cleópatra, Ofélia, Elizabeth, Serena. Era ela despida, nua em si mesma.

Tentei recapitular o livro que tinha estado em suas mãos naquela manhã, olhei para o aparelho de som, busquei qualquer traço delas na cama, nas roupas que ela vestira. Ela sequer colocara uma música, nem um perfume, um lenço, uma pulseira. Era Malitzia saindo do banho quando ele entrou no quarto. Era ela se abaixando para lhe tirar os sapatos. Ela desabotoou cada botão da camisa dele. Ela pendurou a cinta no cabideiro, olhando para ele. Foi Malitzia quem sentou na beirada da cama, menos de um minuto antes de ele dizer. Era Malitzia ali de pernas abertas.

Duas horas. Não senti o tempo porque eu precisava entender. E me iludi em pensar que eram apenas as palavras, que ele soubera o verbo exato, o modo exato, imperativo.

Tempo depois, quando minhas ilusões ainda estavam íntegras, eu ainda pensava nisso, na habilidade das palavras em dominar o momento, em transformar. "Abras as pernas", e uma mulher se faz ali, como se esperasse o sopro do criador que lhe ordena seja, exista. O verbo. É isso. Nunca gostei muito da hermenêutica bíblica, mas desde que o homem é homem ele o é justamente pela palavra, por mais que inventemos metáforas para justificar o narrador do gênesis – como se ele não fosse capaz de já entender a relação entre significado e significante. As coisas todas estão aí desde que o mundo é mundo, mas o herói é quem as nomeia. Deus disse.

As imagens em movimento de tudo a que eu assisti naquele momento – por que não seguir nessa linha: bíblico – fixaram-se em mim de um modo que eu sempre pensava que poderiam ser vistas por quem me olhasse. E quando Malitzia ergueu-se sobre suas duas pernas e olhou para mim depois daquelas duas horas, tenho certeza de que ela viu. Ela viu a si mesma, exatamente como eu a vira, de pernas abertas e olhos negros, querendo ser exatamente a coisa mais óbvia que uma mulher pode ser – e do que ela julgava sempre se afastar com seus livros.

Ah, sim. E por uma ínfima fração de segundo o meu escárnio começou a brotar e eu ia sorrir, eu ia, mas ela sorriu primeiro. Ela se viu e ainda assim sentiu que aprendia, que sua essência estava intacta, que não se corrompia.

É uma palavra do gênero masculino que me designa. E foi ali que eu entendi que Malitzia era apenas mais uma personagem.

Capítulo 9 - A farsa

Quando Malitizia começou a ler Noturno no Chile, ela estava ouvindo música jesuítica. Eu tenho certeza de que ela não conhecia a história do romance, então a escolha da música foi casual. Imagino que como ela nunca tivesse lido nenhum Bolaño quis algo que não lhe tirasse a atenção das palavras. Geralmente era assim, as trilhas sonoras para os romances desconhecidos não podiam ter letras cantáveis. E ela separava as listas de reprodução assim: pelo gênero que ela leria ou escreveria.

Assim que Padre Urrutia ergueu a mão, fazendo o sinal da cruz na pequena cabana dos camponeses, Malitzia pensou que podia ser freira. Achou que talvez estivesse ouvindo um chamado. Ergueu os olhos do livro, perscrutando a si mesma, vendo-se num claustro chileno, inteiramente entregue às orações, mas as orações seriam essa música, que então ela ouvia e que parecia dizer que ela devia enxergar Deus. Malitzia fechou os olhos, a música dizia aleluia, e ela pensou se isso seria o certo. Imaginou-se lendo, de novo numa cela monástica, isolada, o que não era muito diferente do que tinha ali. Fiquei pensando que visão romântica ela teria da vida religiosa, uma Mariana Alcoforado a escrever cartas de amor desiludido. Mas não, ela estava realmente avaliando a inconcebível hipótese de certa fé ou o que seja, e da castidade. Olhou-me.

– Eu poderia viver sem sexo? – Virou-se então para o vazio, com o livro aberto no colo, e assim ficou, eu sei, imaginando a vida aquém do corpo, pura alma, por longos minutos. Eu tentei olhar nos olhos dela, como se ali eu fosse encontrar toda a lascívia possível, resumida numa dúvida, todas as tentações, numa única imagem. Mas a música que Ma ouvia me impedia a luxúria e eu quase disse amém. Voltou-se para mim, os lábios entreabertos.

– Não – sorriu, e então eu pude enxergar. Voltou ao livro. E o modo como seus olhos se voltaram de novo às páginas era então diferente. Eu me senti um pouco afetado pela dúvida, talvez pela música, como se uma porta se tivesse aberto, como se no mundo houvesse algo mais, havia ali algo que tornava o ar estranho, como é o cheiro das catedrais, o eco das coisas, o silêncio dos fieis. Malitizia voltara à ficção, à verdadeira ficção.

– Neruda. Neruda estava no jardim, declamando para a lua. O que tu achas de abrir a janela e encontrar Neruda no jardim, declamando para a lua? – E assim ergueu-se da cama, abrindo o par de venezianas da sacada (e eu quase pude ver Neruda num jardim, em frente a uma estátua grega à luz do luar) e a noite e o frio entraram no quarto. Ela apagou a luz e pegou o livro, lendo-o em pé, no vão da porta, erguendo-o para a luz da rua. Na música, sinos pareceram tocar, mas não sei se tocaram ou se fui eu que ouvi, pensando em Isla Negra.

Assim ela ficou, lendo na penumbra, o Bolaño nas mãos. Eu não pensei em Deus, mas na Virgem, o vestido de Malitzia movendo-se na brisa, seu casaco um manto, seu perfil diante da porta, a luz no fundo como uma pintura, estática com o livro diante do corpo. Os quadros deviam ter música, assim, exatamente assim, como Malitzia, Glória, Aleluia. E Deus me perdoe pelo que eu pensei. A coisa a inquietava, não a coisa enredo, a coisa forma, ou a coisa estrutura. Porque eu podia ver quando era a narrativa, seus nós e cruzamentos, ou era uma personagem, tão viva que aparecia no quarto e com quem Malitzia conversava, ou era a narração ou, como agora, a visão do artista. Não era o narrador Urrutia, de quem ela teve uma espécie de desconfiança, mas o próprio Bolaño.

– Quando eu enxergo a caneta... será isso bom? Olha, Bolaño está aqui escrevendo, posso ouvir seu pensamento, posso vê-lo nas entrelinhas. Não é Urrutia, o padre é um fraco. Escondeu-se na crítica. Espera... se eu posso concebê-lo assim, humano, fragilizado e mortal... então ele poderia apagar Bolaño? – Olhou para a rua, o livro aberto na mão esquerda.

– O narrador, é o narrador que apaga a voz... e ele é o narrador, embora às vezes não o seja. Esse romance é tão... As histórias se enredam, as vozes se misturam como em uma oração. Podia estar vivo e jamais seria lido até o fim. Imagino aqui a história do Chile, quem foi Farewell? Sordel ou Sordello. Que Sordello? Blacatz, Pound, e Neruda? É proposital o sobrenome Urrutia, o mesmo de Matilde, La chascona? Mas eu não quero saber, quero imaginar que Bolaño nutria uma curiosidade especial por La chascona, que talvez a tenha conhecido, não sei... Quero pensar que Bolaño ainda ri da confusão de quem lê, e que, ao mesmo tempo em que sabe o quão sério ele está falando, ele também sabe, como eu não, o que é incluir Allende, Pinochet e mesmo Neruda em sua história – o livro foi fechado e Malitzia recostou-se na cabeceira – Bolaño, é assim que se imortaliza.

– Eu jamais poderia escrever uma história assim. Que personagens eu poderia criar com a verossimilhança da experiência? Eu não vivi nada que pudesse ser narrado, não há história, história... Tenho até vergonha de pensar em nomes, eu jamais citaria, sequer, esses nomes. Como eu poderia colocar o Bandeira em minha história? O que eu teria para ele ou para qualquer outro? Para o mais reles mortal. Seria inverossímil eu dizer qualquer coisa de alguém, se nunca vivi nada que não fosse de papel. Minha história seria um arremedo. A primeira frase faria Hemingway rir, Jane teria pena de mim. Todos ergueriam o dedo para mim... eu, a usurpadora de vidas. A fingidora de fingimentos.

Então ela voltou ao livro: – Vamos, Urrutia, minta pra mim, minta... Só tenho a ti para crer.

Capítulo 8 - Primeiro de outono

Malitzia recostou o corpo no umbral, protegendo o peito do ar frio. Perfeito, pensou, respirando o dia. Cinza, nem sinal de qualquer amarelo. A vizinhança era cúmplice: ninguém podia ser visto daquele ângulo, qualquer som que não o dos pássaros chegava-lhe aos ouvidos, nenhuma cor nos varais, nas janelas fechadas. Sete horas da manhã, cinza claro, perfeito. Apertou o peito com os braços, encolhendo os ombros, depois deu um passo em direção à sacada, olhando para os lados. Perfeito, perfeito, as pernas nuas gelaram, e ela sentiu um arrepio de expectativa. Quando se voltou, adentrando o quarto, entretanto, havia uma ruga acima do olho esquerdo. Parou em frente à estante, os braços ainda apertando o corpo. – E agora? – olhou para mim com aquele ponto de interrogação elizabethano. Quando falou, dizia-se, já com os olhos pra dentro. – É o último. O último da Jane. E não posso ir ao seu túmulo suplicar "write more". Mas eu prometi que seria meu presente de outono, eu prometi – e virou-se para mim – não prometi? A cabeça confirmou lentamente. Sim, ela tinha prometido que leria seu último romance da Jane Austen no início de outono: "no primeiro dia cinza", dissera, eu lembro. Ma sentou-se na cama, os braços então caídos, olhou para a rua: era perfeito. Tinha imaginado que deixaria o par de portas da sacada aberto, as cortinas ficariam balançando, exatamente como agora. Mas era ainda melhor, porque não havia vozes vindo da rua, nem os vestidos estampados de dona Gertrudes no varal, nem Tor estava martelando nos fundos da casa. Eu fiquei aguardando a decisão – posso jurar que se passaram mais de quinze minutos – enquanto Malitzia ficou daquele jeito olhando pela sacada, às vezes olhava a estante. Não sei se enxergava o livro dali, não duvido. Eu sabia que ele estava ali, em algum lugar daquela prateleira, talvez de dedos cruzados, talvez de orgulho ferido. Imagino que o único livro de Jane que ainda não tinha sido lido naquele quarto estivesse altivo, quase zombeteiro, ereto na estante. Tanto quanto eu, ele sabia: não ia tardar as mãos orgásticas dela em sua lombada. E foi assim. Naquele gesto que parecia sempre um final de batalha – ganha ou perdida, não importa –, Ma avançou para a estante num salto e tomou do livro, exatamente como previsto. O próximo passo: o xale, que ela jogou sobre os ombros, já empurrando a poltrona em direção à cama com o pé. Sentada ali, os pés sobre a cama, o xale cobrindo-lhe um tanto das pernas onde o livro pousava, ainda fechado, Ma abria seu presente. Alisou a capa, segurou-o com ambas mãos, virou-o. Como sempre fazia, abriu a última página, alisando a contracapa, passando o dedo entre a dobra com a última página. Tudo estava perfeito. Cheirou longamente o livro, enquanto eu esperava. O último Austen suspenso em suas mãos, colado à face. Beijou-o então, a boca silenciosa apertada contra a capa. Malitzia recostou-se na poltrona, levando o livro ao peito. Estava séria, cinza já, inglesa. Ficou assim, o rosto ligeiramente inclinado para o meu lado, e, por um momento, imaginei que desistia. Durante aqueles minutos, em que o vão das portas abertas me deixava finalmente ver apenas as árvores de um verde e marrom foscos, o canto da casa de Tor, as cortinas às vezes tornando mais nublado o dia, eu pensei: ela só vai imaginar. Ela só vai excitar-se, provocá-lo e dizer não. Tive, como raras vezes, uma imensa vontade de gritar-lhe: sua besta! Sua fingida, puritana, frígida! Pensas que és melhor que ele? Essa história existe há dois séculos sem ti, essa capa dura te ignora, criatura! Tu não fazes diferença nenhuma em milhões de leituras, tu não acrescentas nada! Eu já achava graça de mim, quando Malitzia encarou-me firmemente – eu nem tinha visto o livro aberto em seu colo. ­– Ele me quer. – e começou a ler.

Capítulo 7 - Tempo de voo para lugar algum

Ele sentou na beirada da cama, voltado para a janela. Malitzia não podia ver o sorriso irônico, mal refletido na vidraça. Ela postou-se em sua frente, em pé, segurando-lhe o rosto. Começou a sussurrar coisas que eu não conseguia ouvir... "brincadeira"... "todo meu"... "cansar", enquanto o beijava. Empurrou-o, subindo na cama com aquele seu conjunto de lacinhos pretos. Três segundos antes começara a tocar Nina Simone. E isso significava tudo o que estava por vir, porque Malitzia sempre planejava as coisas com trilha sonora. Nina Simone era pra tocar o disco todo, lentamente, até o fim.

O telefone celular dele tocou quando ela estava levemente adormecida, querendo despertar um milhão de verbos e substantivos, as sensações embrulhadas entre o pescoço e o estômago. Ele atendeu com o seu repetido e firme "sim". Duas frases e as calças na mão, olhando o relógio, falando de "pilhas de coisas". Malitzia abraçou-o:

- Fica um pouco, vamos conversar.

- Acabo de te dizer que preciso ir, tem gente me esperando – O pensamento de Malitzia lhe dizia coisas, gesticulava, gritava até. Ela ficou olhando ele se vestir, sentou-se, segurando o joelho, puxando o lenço. Ele deu aquele beijo e foi para a porta.

- Te ligo.

- "Pensamentos e palavras" vêm antes de "atos e omissões"...

Ele fechou a porta que acabara de entreabrir, voltou-se:

- Queres falar de pecado, Malitzia? De culpa judaico-cristã?

- Não. Eu quero falar. Eu quero que fales. Não vês? Tu não...

- Menina, eu o quê? Eu não tenho nada pra falar! - recostado na porta, as mãos para trás, ele parecia conter uma raiva estranha, que Malitzia não conseguia compreender, e isso a perturbava também de uma maneira incoerente, como se fosse bom, um prazer que vinha da contrariedade dele, uma dor também, de ele não dizer, uma excitação pela força que ele parecia conter.

Emudeceu. As coisas todas subiram-lhe a garganta. Queria ao menos tentar um gesto, que ele a abraçasse, só isso, e ouvisse seu coração batendo forte.

- Está bem - ela disse, segurando uma ponta do lençol.

Então ele titubeou uma fração de segundo, pareceu-me, e saiu pela porta, fechando-a silenciosamente. Ma ficou muito tempo estática, apertando a ponta do lençol, olhando a porta. Então seu rosto virou-se para a estante, e eu tentei, ansiosamente, acompanhar seu olhar. Que livro seria, talvez... Mas ela apenas deitou-se bruscamente, abrindo as pernas como se ele fosse voltar. E recitou, os olhos voltados pra mim, sem enxergá-la:

"ela pintou as unhas de verde
fez uma tatuagem de borboleta
eu vi ela ontem
em seu novo Camaro prata
seus longos cabelos loiros soltos
ao vento.
Pobre Barney.
ele não sabe o que está
perdendo."

Bukowski, ele estava no criado mudo, esperando a hora de reviver.



Capítulo 6 - A insustentável leveza do ser

Malitzia abriu a porta com cuidado. Era ele mesmo que estava lá embaixo. As outras vozes, uma que outra ela podia distinguir, talvez dizer de quem fosse, mais porque eram do costume da casa. A dele se destacava, ele falava em meio as risadas dos outros. Então ela ouviu:
- Ela me pegou por três órgãos...
Gargalhadas, um idiota questionou:
- Três, mas que tipo de homem és?- todos riram de novo. Malitzia imaginou a expressão dele diante da pergunta. E ele completou, como se precisasse terminar a piada a quem não entende a ironia.
- Mais o cérebro e o estômago.
- Ah, bom - disse outro, e ia continuar com o causo, não fosse ele completar.
- Não necessariamente nessa mesma ordem.
Como a audiência realmente ficou entusiasmada com a última observação, ele talvez tenha decidido utilizar a mesma linguagem, mas com aquele quê que a fez realmente enxergar exatamente cada detalhe de sua face diante da plateia, e ela não se surpreendeu com a frase seguinte:
- Ela realmente sabe cozinhar, as palavras e os molhos.
Malitzia fechou a porta, e não ouviu a pergunta sobre se "a boa cozinheira" era exclusiva, nem a resposta dele, nem o silêncio que se seguiu, e o riso diferente que rompeu com o círculo masculino em volta do fogo. Soube na manhã seguinte de uma discussão, mas ninguém sabia do motivo. E ninguém adivinharia tempos mais tarde qual teria sido a razão de certas inimizades políticas na cidade, que viraram mito, como que naturais e de ideologias congênitas, embora todos soubessem que isso era então inviável.
Malitzia fechou a porta e sentiu a estranheza da pergunta que se entranhou no seu corpo, subindo pelos pés, chegando ao sexo, ao estômago, ao peito, nessa exata ordem. Que prazer tinha ela mais em saber de seus dotes? E o desconforto estava que ela sabia onde o elogio a tocava: ela fêmea. Ela sabia das artes, e temperos e fogos e corpos nus se tornaram uma coisa só na imagem que ela fez de si mesma.
Dentro do quarto, ela parou diante de mim, tão questionadora como nunca, e eu senti como se o olhar dela penetrasse no sexo, no estômago, no peito, parando na garganta, na pergunta que ela não fez.
- Da mulher eu já tinha consciência - me disse - estranho... a fêmea não tinha de vir antes? Ou o que é mais primitivo estava escondido em mim? Ou é porque só vem à tona diante do homem?
Sorri. Não precisava dele pra se sentir inteligente. E temperava pra si. Então o que valia dele era saber-se fêmea. Ela foi até a janela, ficou olhando a casa. Do meu lugar, as costas dela na sombra em minha frente, eu ouvi todo seu pensamento.
Era amedrontador sentir que talvez só fosse isso. Um corpo, em que a razão, as palavras, e mesmo aquilo que se podia chamar de alma, ou de espírito, tudo sucumbia ao seu verdadeiro poder, que advinha do mais razo de seu ser, e no entanto o que de mais profundo a fazia ser o que era. Porque precisava do outro. Porque era o mais puro que tinha de si mesma. E porque era de tudo o que mais lhe fazia sentir-se viva.
Malitiza virou-se pra mim, como se o vento empurrando a cortina lhe trouxesse outro sentido.
- Ouve. Tens de parar com isso - e voltando-se pra sua biblioteca, erguendo o rosto diante da estante, resolveu.
- Eu tenho de escrever, será minha salvação.

Capítulo 5 - O minuto seguinte

- Eu queria ser só tua - disse-lhe Ma, o olhar meio turvo pela proximidade dos pelos do peito dele, que ela alisava entre os dedos - queria poder ser sempre tua, só tua.
- Hum - ele respondeu, o que podia indicar apenas que ele estava ouvindo, ou que talvez aprovasse, ou que desprezasse essa vontade de Malitzia, deitada parcialmente sobre seu corpo nessa hora em que ele preferia não falar.
- Porque tu não és de ninguém, eu sei. Nunca terá dona esse coração - e ela pousou a mão onde supunha ele estava, e pôde perceber que as batidas ainda estavam aceleradas.
- Há, não mesmo - ele disse depois de uma breve risada. E afastou-se dela, queixando-se da posição - mas se tu não és só minha, de quem mais és?
- Da rotina, meu senhor, da rotina. Da vida.
- Hum.
- De mim mesma. Dessa que não sou eu.
- Mas é bom que sejas de ti mesma, já te disse isso.
- Eu sei, senhor, achas que não sei? Não preciso do teu sermão. Achas que tenho escolha?
- Claro que tens!
- Posso escolher não te amar?
- Ah, tu nem sabes o que é amar, pensas que me amas. Amanhã...
- isso muda, encontro outro, te esqueço, fico com Leonardo... tu sempre repetes a mesma ladainha.
- É pra combinar com a tua, Malitzia. Por que não gozas o momento em vez de se lastimar?
- Não me lastimo, não senhor, eu gozo. Eu gozo, tu não vês? - disse ela, subindo sobre ele, a perna entrelaçando o corpo, os olhos e a boca olhando a boca.
Segurando-lhe o rosto com ambas mãos e acariciando-lhe a face, Ma começou a beijar levemente o queixo, o canto dos lábios, enquanto subia ainda mais o corpo sobre ele, como quem se esgueira, ladina.
- Tu não cansas não? Não te chegou ainda?
- O meu querer tu não se esgota. Perto de ti sempre tenho vontade.
- Tu tens vontade porque te deixo com vontade. Agora sai, tenho de ir. Não dá tempo de recomeçar, menina.
- Por que tem de ser tanto, não pode ser só um pouquinho, só um bocadinho mais? - Mas ela já sentava na cama, segurando os joelhos, semicoberta pelo lençol.
Ele ficou olhando as costas dela, a mão vacilou. Sentiu o perfume dos cabelos por um instante quando se ergueu da cama, já recolhendo as roupas.
- Cheiro bom do teu cabelo.
Malitzia suspirou, ele era assim. Amava-o. Ficou olhando-o pelo espelho, os olhos brilhantes, pensando nisso: que o amava. Que perdoava tudo. Que não se importava que ele não era dela, nunca, talvez nem na cama. Que queria ser só dele, sempre, só dele. E ele foi cantarolando para o banheiro.

Capítulo 4 - Vidas

Quando Ma escolhia um livro, o mundo parava pra nós. Ela punha as mãos atrás da cabeça às vezes, parada em frente à estante. Mas muitas vezes não era assim, e eu demorei algumas escolhas pra entender o gesto. Ela escolhia o livro de ficar pensando, não sei como. Era assim. Primeiro ela ficava vagarosa, estivesse fazendo qualquer coisa, pondo a calcinha ou um disco. Aos poucos era como se tudo fosse ficando quadro a quadro. Vez por outra, um milésimo de segundo, notava-se um corte, então seu olhar ficava fora de foco, vago, o corpo estático. Dali pra estante, direto ao ponto. Pegava o livro, corria à cama, ao chão, ao banheiro, à sacada, à poltrona, então fora dali, já noutro mundo. Mas nunca, nunca saía de seu quarto com livro algum. Eles só entravam pra não sair mais.
Quando ela o conheceu, de verdade, ela estava lendo aquele da capa marrom. Sempre em cima da mesinha, não sei quantas vezes Malitzia o leu. Enquanto eu estava lá, pegava-o sempre, nem que fosse para cheirá-lo. Cheirar os livros era uma coisa que ela fazia toda vida. Cheirava o livro e, se fosse velho, alisava a capa. Talvez dependesse de outra coisa, não sei, mas nem todos tinham suas capas alisadas. O da capa marrom era objeto de culto. Madame Bovary.
Ma gostava de repetir pra mim: Moi, je suis Mme. Bovary. Com olhos seus, gestos seus, sua voz mesmo. No dia em que eles conversaram lá embaixo, e Malitzia subiu correndo para o quarto a tempo de vê-lo sair de carro, ela olhou para o livro, que então estava embaixo de uma pilha de quatro ou cinco títulos, entre os que lembro, A mulher desiludida e A fera na selva. Ma olhou pra ele, o dedo na boca, já recostada na cama e, quando seus olhos pousaram em mim, compreendi. Já queria. Já estava decidida desde aquele dia. Talvez apaixonada, embora se me parecesse muito mais um gosto de si, uma vontade de se provar. Puxou o livro da pilha e procurou certo trecho. Leu-o rapidamente, a cabeça indo e vindo , o livro sobre os joelhos, a boca se movendo um pouco. Então se deitou, braços esticados, e sorriu de olhos fechados. Era como se me disesse cada palavra: eu serei dele. E foi, inteira.

Capítulo 3 - O intruso

Agora quero lembrar dos olhos de Malitzia, que me diziam. Olhos que me perguntavam. Na primeira vez que eles me olharam, eu recém chegara ao porão. Foi no dia em que Olívia resolveu limpá-lo. Já fazia então dezoito anos que ele tinha ido embora e, não sei se por isso ou pelo caso de Anita, resolveu que era hora do expurgo. Ela não esperava a intervenção de Malitzia a descobrir as coisas do pai. Sempre que mexia em alguma caixa, a mãe espreitava-a, querendo saber. Avaliava decerto a mão tentando conhecê-lo pelo livro, pelo disco, pela carteira velha, por uma latinha amassada. E Malitzia tocou e cheirou todos eles mais de uma vez. Não falou nada, a face mascarada, coçando o nariz por coceira mesmo, só um suspiro.
Só ao fim, quando tudo encaixotado e varrido, mostrou a sacola: um livro e dois discos.
- Posso?
Olívia não olhou o conteúdo da sacola, só fez balançar a cabeça quase imperceptivelmente. Foi nesse momento que Ma - e desde então sempre a chamei assim - olhou para mim, encostado à janela.
O olhar dela. Era um mundo e uma enorme lacuna, ao mesmo tempo uma certeza e uma pergunta, uma coisa dolorida e bela. Ela me desafiou como um soco.
- É de Celta - disse inesperadamente Olívia. Ma olhou a mãe, rápida, e me voltou os olhos de novo, agora diferentes, quase zombeteiros. Sorriu um sorriso seu.
- Não sei pra que tu quer essas coisas aí - disse a mãe -, devem estar podres. Mas ela nem dava mais conta da sacola, sorria pra mim aquele sorriso seu.
Três dias depois eu estava no quarto de Malitzia. Olívia nunca falou nada, foi um acordo silencioso, como se eu fosse a consolação. De certa forma, sempre fui.

Capítulo 2 - A sombra do cão

Tinha olhos escuros e redondos como dois alephs. Cabelos muito pretos, curtos, a cair-lhe pelos lados - e por isso às vezes olhava assim, oblíqua, espreitando pelas frestas. Diferente, o rosto miúdo, a boca de cantos tristes. Bela pra quem sabia olhar, como eu. A pele. A pele de escorregar o sol e as gotas, branca sem ser branca. Bela pra quem sabia. Cheia de lacunas, transpirando vontades. Malitzia. Malitzia. (Pronunciar teu nome é sentir teu cheiro de novo.)
Os olhos acusadores da mãe naquele dia. (Malitzia, Malitzia) Eu só pude ver seus pés estendidos no banheiro, e o vestido estampado.
Vou contar que ela foi tão feliz. Um pequeno frasco de perfume, exótico e misterioso. Vestida de Cleópatra, estirada na cama, eu já estava lá, eu vi o olhar dele quando chegou. O reflexo das costas de Malitzia se projetando no quarto. Ele não sorriu. Que posso dizer do amor deles naquela tarde? Secreto, silencioso, denso. Nem uma palavra, nem um gemido, a maquiagem negra de Malitzia escorrendo pela face. A boca, esfumaçada de vermelho, entreaberta, dizendo coisas que só eu ouvia. E ela olhou para mim muitas vezes, sorrindo e chorando, como se o veneno começasse a agir. A virgindade de Cleópatra, a cobra no sexto. Ele foi a cicuta.
Um ano depois, ela, a sombra do cão. Queria-o pra respirar, ansiosa sempre. Mulher. Bebendo-o desesperadamente.

A Biblioteca de Malitzia

Ela começou a compreender em um dia de chuva. Triste. Com a cabeça encostada na vidraça pensou que podia morrer. Talvez quisesse, não conseguia pensar direito. Mas pensou na morte, olhando o carro estacionado. Compreendeu que não havia caminho algum em que ela pudesse ser feliz. Não agora, não depois desse encontro, nunca mais.
Mas ela tinha apenas 22 anos e foi dormir. Chorou antes de adormecer e olhou para mim várias vezes enquanto chorava. Sei que pensava nela, porque Malitzia é assim.
Três dias antes tinha usado o vestido estampado pela primeira vez, certa de si. Agora tinha perdido aquele momento, em que pensava ser finalmente ela, definitiva. Estava tão feliz, entrou correndo no quarto com o pacote e foi direto ao banheiro. Quando eu a vi vestida, alisando a barra da saia, confesso que não respirei, mas não houve tempo pra nada, mal olhou pra mim. Malitzia saiu girando pelo quarto, rodando o vestido. Pôs Elvis, mas não lembro o nome. Posso cantarolar... E dançou, dançou...

A Biblioteca de Malitzia - o início

Malitzia guardava os livros como as roupas no armário. Casacos pesados em cabides mais ao fundo do armário e camisetas dobradas. Nada de cores, mas estações. Sim, a estante era dividida em estações, só agora vejo bem. Não fossem os cacos da memória, seria mais fácil, mas muitas coisas só refletem agora, e posso ver Inês Pedrosa na primavera e García Marquez no verão. Adélia Prado, todos os livros juntos, outonais. Que ela dizia que era pra hora de trocar de casca, de perder as folhas, de olhar no espelho. Estou tentando pensar de seus livros preferidos. Vejo que esses se perdiam no tempo. Como Assis Brasil, espalhados pelas quatro estações. As virtudes da casa no inverno. Sim, seus preferidos eram invernais... talvez... Eu podia fazer um tratado sobre seus modos de ler. Entre o silêncio e a orquestra. Na semiescuridão do mínimo necessário, enconchada como um prisioneiro em cela fria, até o estreitamento dos olhos, só o livro lhe fazendo sombra ao rosto, o corpo estirado ao sol. Em pé, regendo, a mão esquerda erguendo o livro até os olhos, a direita acariciando Bizet. Sentada embaixo do umbral da sacada, as pernas no sol, devorando Carpinejar. Às vezes chegando até a mim, pra repetir o poema de sua boca, as papilas degustando os versos. Tantas imagens fiz da poltrona, Malitzia sentada ereta nos primeiros minutos, depois o texto a comandar a forma de sua curvatura, a posição das pernas, a eletricidade das mãos. Na cama, lia muito. Silêncio e cama significavam literatura, como tantas coisas outras também lhe significavam livros. O sexo, o sexo era-lhe inteiramente artístico. O sexo era corpo, o suporte necessário, e era alma, como a Arte. Eu sabia quando ele vinha pelos livros, pela música, mais do que pelo vestido e a calcinha separados no cabide ou a depilação. E quando ele chegava de surpresa, se o livro dizia não, era não. Quando a surpresa preenchia os vazios, então era sim. Que o sim de Malitzia era fome sempre. Depois, a estante se agitava, o caderno e o lápis iam para a cama desarrumada, dividindo os lençois com Camile Paglia, Vargas Llosa e Nina Simone em combinações que eu tentava entender pelas nuanças do sexo refletido. Raramente compreendia. A posição preferida de Malitzia na cama era de bruços, as pernas dobradas rentes a cabeceira, o dorso erguido pelos cotovelos, as mãos no meio do livro. Assim ficava horas, às vezes estendendo a face direita ou esquerda, alternadamente, na cama, esticando os braços, para cruzar os ditos e não ditos. Seus cotovelos, muitas vezes vermelhos e inchados, agradeciam. Costumava colocar uma almofada embaixo do corpo, entre o ventre e a curvatura do púbis, porque lhe doíam sempre as costas. Fazia isso também em outras ocasiões, vezes em que eu jurava que ia pegar um livro e esquecer o homem, mesmo porque em não raros momentos havia livros em cima da cama, que ele atirava longe, pra riso ou irritação dela, conforme o título. Malitzia não existe só em mim agora. A leitora que ela era está nos livros, às margens, no intertexto, na reescritura. Malitzia está ali no seu caderno de capa preta de escrileitora, ali ela vive, relendo Proust na primavera, ouvindo Corrs no verão. Ela é esta biblioteca.
 

Sem título

Quando eu me vi no espelho pela primeira vez, aos trinta e seis anos, achei que estava pronta naquele piscar de olhos. Apenas uma fração de segundo antes da acomodação das pupilas. A consciência de mim veio estreitando os olhos. Recém estava me esboçando, a caneta em suspenso. Aprendi que meu livro está em branco. Só posso ler para trás, o que está escrito está escrito. Mas a próxima palavra eu nunca sei.