Colaboradores

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Posso converter este sol numa gota
que vai adocicar minha boca com o teu gosto
E se eu deixar
a chuva se faz tua mão na minha pele úmida

E essa flor
vai repetir meu nome com tua sedução

Ora, eu tenho amor de sobra pra relativizar as coisas

Só a saudade é essa coisa dura

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vazio

Há casais lá fora
cinzas e coloridos
Nem tão casais
às vezes apenas um vago

Nem isso posso
ocupar o vazio do banco,
a indiferença não faz parte dessa minha relação

Ao menos fosse assim
a paz – mesmo que teatral –
de sentar ao lado teu
como quem repassa os anos da vida em que éramos
eles
um casal que senta lado-a-lado
no banco vazio
e sonha com o que poderia ter sido

Desperdício

Se lhe pousa a mosca:
O que sente a fruta, ainda verde, no pé?
Se a folha, tola, lhe cobre o sol?
Se o galho, torto, lhe impede a seiva?
Angustia-se a fruta verde por saber-se perene
e, ainda: jamais madura?

Assim me sinto:
fruta verde, inerte
Jamais minha carne suculenta te tocará os lábios.
Caio antes, verde! aos pés da macieira.

Em tuas mãos

Toca-as
Com a ponta dos dedos úmidos
toca-as

Tua boca entreabre-se
teus olhos falam
goza-as uma a uma

As duas mãos
seguram e percorrem,
lânguida uma que às vezes
toca em teu próprio corpo

Teu corpo calmo (zombeteiro)
Mas tua boca e teus olhos traem teu prazer

Frenético percorres
e goza-as
todas

Queria ser esse livro em tuas mãos
Para que tocasses minha páginas
com essa lascívia

Para que teus lábios
murmurassem o prazer que seria meu
e que daria a ti
o prazer que veria nos teus olhos
ávidos, percorrendo minha páginas
abertas
existência apenas das tuas mãos e do teu decifrar

sábado, 25 de outubro de 2008

No answer

Eu ia dizer
que teu beijo é a fala mais perfeita
entre duas bocas

mas saiu antes um soluço
e pingou uma lágrima no tapete
me distraí do detalhe essencial

nem reparei mais na umidade do lençol
e nas outras manchas do chão

eu ia dizer do teu beijo
minha boca nem titubeava
foi só uma pergunta sem resposta

e outra pergunta e o não saber
de aceitar ou de Minas
nossa cama e nossa conta bancária

ficou o gosto do beijo na boca
muda
amargo

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Poeta que nada

Tá. Querem que eu vista a máscara
do estilo: um sujeito isento de fraque
Nada disso. Sou pessoa reles
da pá virada

Eu digo isso mesmo
sangue e volúpia
a dor própria e até mesmo o desatino
não vou escolher palavras

Não vou escolher sinônimos
pra desacorsoar os ritmos e fazer de conta
que existe um eu bem intencionado
Nada disso

Rasgo o papel em pedacinhos
antes do melindre e do tal cinzel
dos que sabem fazer bonito
em caderneta de acervo

Dou risadas desses desbundes
e depois choro da dor que disse
sou eu mesma: ninguém duvide
sujeita desajeitada e só

sujeitada a isso: sofro
só não sei fingir
Oh e me perdoem que perdi a chave
nem tenho ouro

só tenho essa boca
que é beijo é falta e também é
forma
de mim e ninguém mais

sábado, 20 de setembro de 2008

Trégua

Estou em trânsito. Transe. Trâmite. Traduzindo-me. Traio-me. Trepida, tremula, trucida. Tragédia.

À sombra de Eliot

Este instante é meu tempo todo. Minha cultura, sacra, inegável. Tradição traição. Meu estar infixável, nunca estático. Meu querer em fuga, círculo caótico. Meu ser, profano racional. Neste instante incaptável.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Do livro dos desejos

Eu poderia ser essa mulher.
Já não sou?
Sou esta que mima teus desajustes e observa teu relógio?
Esta que se mimetiza por teus quereres?
Que estabelece em ti as considerações?

Sou esta que se encanta em descobrir mesmo os dissabores
- porque a vida é enfim contigo?

Sou esta que vê escurecer o castanho dos teus olhos
- a única - esta que sou?

Sou esta que não te estranha e te respira?
Esta cujo silêncio te chama?

Bem sei
pensas que te faço rir (mesmo que por graça)
que te alivio
e que por teu corpo no meu é que se transformam teus olhos
apenas porque sou esta
justamente esta
a quem nada prometes
- a quem não deves nada

Apenas porque sou esta
que te recebe aos punhados
como em pagas

Pois eu sou esta, justamente esta
para quem teu sorriso é inteiro
e teu pouco é tudo

Sou eu, sim, sou esta mulher.

domingo, 7 de setembro de 2008

Ressintindo-me

Moro embaixo da mesa
Sob aquilo que como e sirvo

Ousei desatar meus cabelos presos
E abandonar meu destino sob as engrenagens
E então minha vida no espelho

Meu corpo carne em cima da mesa
Preso em meu sexo
Que razão há em mim para ser diferente?

Eu danço essa música
Armo-me de seduções contra mim mesma
Sempre o mesmo vestido vermelho

Sempre o mesmo desejo
Carne e sexo
Não é vida isso?

Não é por isso que gira a máquina?
Que se abrem e se fecham portas e janelas?
Que razão há em mim para ser diferente?

Sou apenas um corpo a ser servido
Carne e sexo
E assim gira a engrenagem

Eu moro embaixo da mesa
Quis sair um dia
Meu atrevimento foi esta dor

domingo, 31 de agosto de 2008

Fake

Eu tenho um armário cheio de máscaras
que só tu não conheces

Teu corpo me despe inteira
fico só eu no teu peito respirando-me

Às vezes eu não me encontro em ti
talvez perdida em tua alma
talvez à beira impenetrável de teu oceano
ou apenas assim: o vento do abismo em meus cabelos


Eu não sei das finitudes
a tatoo eterna do teu nome em mim
o que me pergunta é do tanto, esse tanto tanto
este côncavo que soterro de desculpas tolas
pra não me pôr de joelhos

Eu não te digo mais do que sou capaz
o resto eu não entendo

Então eu me finjo de poeta
pra fingir que finjo a dor que não é minha
pra pôr o vazio em peito alheio
pra empurrar outro corpo no desfiladeiro

É tudo mentira
faz tempo que eu só me confesso entre quatro paredes

Eu tenho um armário cheio de máscaras
mas nenhuma serve em meu coração

sábado, 30 de agosto de 2008

Disco arranhado

Estou cansada de ouvir sobre coisas que não me calam
coisas de caráter único e estático
verdades ditas entre sorrisos e aplausos moucos

Penso nelas apenas pelo que me des-pensam
e elas me dispensam os contrários, as descontinuidades
não têm meu crédito nem meu destempero

Eu quero as hipóteses na corda-bamba, as palavras-facas
que a dor delas me afasta da ferida
e me aproxima de mim

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cortinas fechadas

Estou morta
Toca Outono de Piazzola
e ali jaz minha alma em decúbito


Morri inteira aos pedaços e em gotas
como chorava Manuel quando ele tinha medo
e eu sorri para ela


Morta
minha garganta enrijecida de não dizer
meu útero à espera das flores e das palavras


Quero dizer as últimas
mas que restará senão meu silêncio
e o calor da minha alma quando sob ti


Estou morta
Minhas costas voltam-se à luz
E tu estás lá sorrindo do meu prazer

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dia de São Miguel

O que eu faço com esse amor?

Sobram meus adereços e meus ensaios
o carinho formiga minhas mãos
a vontade escorre de meu corpo

Minhas pernas estão perdidas
e minha boca desencantada de tanto acréscimo

Trago em bandeja o que recusas em bocados
Transbordo em cedências

Levo-me à feira?
Congelo-me

Auto-poiesis

Permito escrever-me
a caneta vértice narradora de mim
Ela compõe meus pedaços:
a dúvida e o desencanto me emudecem

Meu equilíbrio está na loucura
Minha sintaxe corrompida se atreve

Ela me permite o que eu não devo
Perverte minha semântica, goza minhas metáforas
Sou artimanha de mim mesma:
Incapaz de ver senão no signo que me apaga

Os papéis riscados engoliram minha voz
Eles me gemem, me vomitam, me consomem

A caneta me devolve a alma em corpo nexo
Cada palavra um escárnio
Verso auto-sintagma

Uma colagem um desespero ânsia inteira
Uma morte

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Espírito santo

Hoje me despi das asas e das vontades
fechei meu livro

Ajoelhada, mãos no chão, bebi cada palavra
meus cabelos confundindo as letras

Entreguei-me em prostração
exausta do que me desmente, aceito

Aceito-me. Esta é minha carne
esta é minha alma

Este é meu corpo que se faz em ti
Faz em mim tua vontade

E Deus perdoe meu contentamento
e meu delírio

Já que não há perdão pra meu amor

Talvez a vida seja mesmo esse mistério

Sabe? A gente não sabe nada. Rian de rian. Até as ciências exatas duvidam de si mesmas. Pensa no próximo segundo, que sabemos dele? Ah, que se tropeça... Duvidas do inferno? O melhor amigo inveja e odeia, como tu. Duvidas de Deus? Escarneça, então, lança ao diabo tua melhor oferta! Não temos o arbítrio de um segundo. De uma curva. De um suspiro. Às favas! Baunilha...sorvete... Adoro sorvete de baunilha!

domingo, 10 de agosto de 2008

only sex

Danada de estranha essa vida
inteira eu me perguntando
sou capaz?

então quando ele me responde que sim
eu choro
porque a danada da resposta vem com não pior

então pra que ser capaz?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Hybris

Escolho sofrer
antes minha vida em versos alexandrinos
do que a insipidez dos cegamente felizes
que comem e dormem e lêem o jornal pela primeira página

Escolho sentir
Meus cinco dados pela janela e não importa a conta
todos os meus desacertos valem o teu beijo e o teu desprezo
Os meus sentidos não têm medo do veneno e do cadafalso

Escolho saber
mesmo as rotinas e as bárbaries, a quebra de todas as promessas
minhas vontades insatisfeitas, meus ridículos
mesmo o teu medo de jogar os dados

Escolho viver
escolho-me

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Claustrofobia

De todas as minhas incertezas tenho em ti a constante
teus significados não me põem à prova
o que me questiona é o possível que trazes nos bolsos

Tu não és minha única resposta

O vazio jaz em mim
nas coisas que perderam o sentido depois do teu gesto
Por que uma casa e um gato?
Por que domingos?
Por que vida?

Essa dúvida de mim me esquarteja no espelho
me acorda de manhã situando as paredes descascadas
os desbotados, os rotos, todos os desatinos, as coisas tortas

Eu podia viver sem sentir essas protuberâncias
essa estranheza desconfortável de quem respira o desconhecido

Agora quero sentidos aos domingos
e a tua constância na minha varanda
quero acariciar o gato
quero esvaziar teus bolsos

Quero viver