Colaboradores

terça-feira, 30 de julho de 2013

Capítulo 13 – À sombra dos livros

Ela tinha cantado “I’m your man” pra ele, com a voz do Leonard Cohen sussurrando por baixo. Tentei enxergar se algum músculo dele se movia além do óbvio. Talvez um pouco nos cantos da boca, mas apenas quando Malitzia se moveu na poltrona. É impossível decifrá-lo além de que ele seja perigoso. Não é que ele pense que o mundo gira ao seu redor. É que são pequenos redemoinhos, os pequenos mundos ao redor dele, que funcionam sob seu comando. Eu tenho medo dele, confesso, e vejo esse medo nos olhos de Malitzia. Não sei como ela pode. Talvez seja mesmo o medo, uma espécie de adrenalina que o desejo permite. Quando ela era Marcel atrás das raparigas, ele seguia sendo Bergotte e talvez também Gilberte.
À beira de uma praia, em um campo florido ou em uma cidade fermentando à beira da modernidade, Malitzia não se interessaria por pessoas, a não ser por si mesma e suas sensações diante do mundo. Se a realidade – e talvez mesmo certos fenômenos sociais – a interessavam a ponto de perder horas a contemplar as formas de uma pedra (desde que com trilha sonora), jamais se voltaria a entender alguém. A não ser que esse alguém fosse um personagem, alguém com existência e personalidade verossímeis – não reais –, jamais um tipo qualquer. Esse era o caso de Marcel, por quem Malitzia nutria uma admiração irritante. Acreditava tanto nele que odiava todo aquele burburinho de coisas dos quais ele corria atrás, gentes e sensações que ela desconhecia. Defendia-o diante de Gilberte e Swan e desejava, como quem reza, que o Marcel atrás do narrador tivesse deixado, em uma gaveta que ainda não fora aberta, um calhamaço inédito. E ali Marcel estava redimido de não a ter encontrado. Só não sabia que destino deveria ser o dele, apenas que tinha de ser um final feliz, preferencialmente com ela. Malitzia acreditava que podia sempre salvar os personagens de seus destinos de papel.
Às vezes penso que Malitzia sempre é Marcel quando lê. O mundo dele é a biblioteca dela, e ambos escrevem, cada um em seu universo, as suas próprias sensações. Para eles, tudo é impressionismo, e só percebem aquilo que lhes diz respeito.
E assim não posso deixar de me preocupar com o destino dela. Olho pra esse homem ali, tentando convencê-la de sua utilidade, mais para os outros do que para ela, e vejo como que cacos, um reflexo cheio de fissuras que se vão romper a qualquer instante. Quando este imenso casarão de que ela se faz prisioneira ruir, não serão os livros a salvá-la, como ela pensa faz com a ficção. Muito menos ele, com toda a sua imunidade. Embora tudo esteja à ponta de caneta, não haverá leitor para concretizar uma história com final feliz. O livro será fechado, todos eles, e Malitzia finalmente talvez se transforme naquilo que ela sempre sonhou ser: uma personagem.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Capítulo 12 – A romantic name for the lake shore


Naquele dia Malitzia acordou estranha. A janela tinha ficado apenas encostada à noite e o vento a abrira, deixando entrar a aragem da noite. Estava frio o quarto e talvez isso a tenha feito sonhar de novo com florestas e flautas e mantos sujos ao pé de fogueiras, como daquela vez em que ela escrevera o poema que jaz em uma folha amarelecida na gaveta das meias. Cheiro de sangue e brumas e espadas. O resultado da ida ao sebo está no alto da prateleira, à esquerda, em três volumes. E o resto do salário se foi virtualmente em música celta, ela amaldiçoando o fim do Limewire. Corrs era profano demais.
Agora de novo esse contexto – contexto é uma ótima palavra aqui, porque certamente isso resultaria em escrileituras. Da minha aparente eterna rigidez diante das situações, observei Malitzia levantar feito a costela de Adão, farejando o paraíso como uma novidade e evidenciando uma franca decepção. Mas eu não era a serpente e portanto não fiz nenhuma sugestão sobre maçãs. Aliás, a tentação bem podia ser aquela maçã eletrônica em cima da mesinha, com sua luzinha incandescente, chamando como aquela outra, púrpura, que a mãe de Malitzia colocou na frente da casa – para não ser tão evidente.
Lembrei que no escuro da noite Ilana batera na porta para dizer-lhe que ele estava lá embaixo. Dizer-lhe é modo de dizer, pois como sempre acontece no meio da noite, foi um bilhete sob a porta que fez Malitzia arrancar o pijama, escovar de novo os dentes, mirar-se na penumbra umas dez vezes e andar de um lado a outro do quarto até a desistência. Nunca vou entender essa espécie de esperança feminina que, contradizendo o gênero do presságio, parece nunca entender que rotina é rotina. Se ele nunca vem quando entra pela porta da frente, por que ela sempre acha que um dia ele, um homem, vai mudar o percurso e o costume?
Pensei que contaria até dez e Malitzia apertaria a campainha. Ilana como sempre às dez horas estaria dormindo, talvez com um sorriso de despeito pelo gesto do bilhete que, ela pensa, apaga todos os outros despeitos que ela faz de conta que não sofre. Juçanã subiria pensando que era o café da manhã incompleto. Dez. Não naquela ocasião. Naquele dia Malitzia acordou dama do lago. Colocou o café a fazer, e torradas com manteiga. Diadorim subiu em seu colo, a mais nova moradora do quarto. Diadorim porque Malitzia ignora seu sexo, ignora por querer, talvez para amar Diadorim, a gata-veredas.
Quasímodo parecia escutar os acordes do violino, sentado diante do computador. No dia em que ele foi batizado, mal entrara pela sacada em uma tarde de chuva, eu não precisei de explicação sobre seu nome, tanto parecia que aqueles chumaços de pelo no alto do pescoço eram uma corcunda.  Ademais, vive no telhado como que a confirmar seu nome. E o Marquês de Faial – ou apenas Marquês – é assim chamado por ser feio e elegante. E é elegantemente esticado sobre o tapete que ele estava, olhando para a janela como quem olha para seu nobre latifúndio.
Malitzia não enganou nem a mim nem a Diadorim, que logo sentiu a tensão e fugiu do colo. Com os felinos todos no quarto nunca é preciso olhar a previsão do tempo. Estava frio lá fora, e havia eletricidade aqui dentro. Antes da batida na madeira e do movimento de Malitzia, lá se foram todos pelas escadas da porta da esquerda. Malitzia desapareceu do meu campo de visão para deixar Juçanã entrar. Ouvi os ferros um após o outro. Gosto dessa índia, gosto de vê-la em seu silêncio de quem ouve tudo, sempre com uma expressão serena. Com Malitzia ela fala, fala baixinho, quase se desculpando do seu próprio som. Enquanto lençóis foram sendo trocados, roupas do cesto carregadas, toalhas, os conselhos de sempre sobre o banheiro, as mesmas perguntas sobre o dia da limpeza e os suprimentos do frigobar, eu fiquei esperando uma novidade de Malitzia. Quis pensar que aquele olhar inquieto de desejo era uma pergunta. Juçanã foi lavar a louça da noite, mandando Malitzia comer, “toma teu café, toma, come, tua mãe mandou eu olhar”. Dez. Eu estava inapto para previsões. Que não me viessem as madrastas!
A novidade veio de outro canto, Juçanã lhe estendeu o bilhete que ela quase se esquecera de entregar, era de Ilana. Malitzia fez de conta que não se importava, jogou-o do outro lado da cama. Nada de varrer agora, Sanã. Depois que eu sair, hoje eu vou, não faz mal o frio. E lá se foram as saias e aventais da tia-avó morena, da tia índia, ama-seca, a coisa mais perto de mãe que Malitzia conhecia. Porta trancada, os sons das três trancas de novo, as três trancas trágicas como Malitzia gostava de dizer pra ele. Ela até fez um poema. “As três trancas trágicas Uma. Duas. Três. Atravessam-me. Traio-as. E trago o mundo pelas janelas. Abertas.”
Embora Malitzia confessasse diante de mim que sabia que ele não tinha trepado (três trancas) com ninguém na sua vinda ontem à noite, eu não precisava daquela declaração para conhecer o conteúdo do bilhete. A trilha sonora então trocada e o café da manhã recebendo a devida atenção já disseram que tudo estava intacto. Tango. (Se eu pudesse declamaria agora, três, trancas, trocadas, traídas, tango). Gardel era prenúncio de luxúria. Era prenúncio só porque ele não gostava de tango, se não seria simultâneo ao ato.

Com uma torrada na mão diante de mim e olhos nos olhos, ela anunciou, dessa vez como quem finalmente entende os protocolos: “Ele vem hoje, sempre vem no dia seguinte. Se veio só para jogar com a cambada, ou pra matutar o eleitorado, então vem hoje, pela minha porta”. Não duvidei, até pude imaginar já o som dos passos dele pela escada e as grandes portas de vidro da sacada se abrindo, as duas, como sempre, como se entrasse um imperador muito largo. Malitzia sentada na poltrona talvez, perfumada, nua, talvez com aquele chambre das manhãs de sonhos de castelos, dama do lago, na penumbra. Talvez seminua, com as luzes todas acesas, dançando ao som de Joss, sabendo que Thor a observava lá de sua janela, tentando se manter são. Não importava como, mas esta noite Malitzia estaria esperando, de janelas abertas, como sempre. E como sempre ele viria, dono, homem. E Thor socaria alucinadamente as paredes como se fosse ele, o gamo-rei. Enquanto eu imaginava tudo, Malitzia já sentava diante do computador, para escrever, com um livro na mão. Corrs reabilitado. No alto da prateleira, o vazio entre os velhos três volumes indicava: sim, seria a noite da senhora da árvore.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Capítulo 11 - A secret chord


Ma quis transformar a leitura em experiência, creio eu. Só conheci um trecho, do capitulo de Fernando. Quando Ma começou a ler, passados uns três minutos, ela começou a saltar rápido, analisando a historia – não, ela estava analisando a narração, agora vejo – com aquela rusga na testa. Depois, sentada à beira da cama – e eu sem querer lembrando aquela tarde dois dias antes – ficou por um tempo agitando os pés com um dedo à boca. Então foi para o computador. Escutava um trecho de uma música e outra e outra. Parava, pegava o livro, buscava um CD, ia até a janela, cantarolava. Que diabo de livro é esse,  pensei eu, ela o quer ou não?
Então tudo se organizou. Ela verificou a fechadura da porta direita. Colocou mais um travesseiro na cama, olhou para a poltrona, escolheu-a. Colocou o computador na mesinha, os fones de ouvido, e sentada já com o livro suspirou. Abriu-o do inicio novamente e eu amaldiçoei todos os fones de ouvido do mundo, inimigos das minhas catarses.
Comecei a tentar imaginar não apenas mais as palavras, mas a música, pelos olhos de Malitzia, pelo menor movimento de sua face, pelo jeito como movimentava os olhos e as dedos pelas páginas. O cabelo que lhe caía na face era ao mesmo tempo uma palavra e uma nota. A perna movendo-se era uma frase inteira ao som de Frank, de Janis, nas cordas de Muddy. Então levei um susto. Ma arrancou  o conector, invadindo egoisticamente meu horizonte silencioso de sentido.
Era Jenny. Desliguei meus sons imaginários, a história que eu estava lendo desmanchou-se, e minha imaginação vibrou na tentativa de construir uma narrativa para aquela música. Digo narrativa porque certamente não seriam poemas. Que leitor colocaria varias músicas diferentes a conversarem com um único livro de poemas? Me vi esfregando as mãos de ansiedade. Jenny. Jenny. E agora Amália. Deus criador, nunca! Olhei para Ma interrogativamente, ela parecia avaliar o dialogo que tinha tentado propor. Definitivamente não estava certo. Então ela disse baixinho a si mesma que teria de ser outra coisa para Lisboa. Que não estava funcionando eu tinha certeza.
Então começou a tocar a aleluia de Jeff. O corpo inteiro de Malitzia reagiu, como se ela não soubesse a sequencia. Tudo parou no quarto. Malitzia olhou-me sentindo, sorriu. O livro fechado. As palavras silenciam quando algumas delas vêm na canção.
Olhei nos seus olhos. Algumas músicas não suportam o mundo. Quando elas tocam, a última gota do tempo escorre para o ralo. Fechamos os olhos. Jeff na penumbra. 
No meu peito não cabem pássaros, ela disse. No meu corpo está só esta canção.
Quando terminou, ficou um vazio cuja tristeza não tinha sentido na morte de Jeff, como na primeira vez. Era ele imortal afinal. A tristeza vinha eu acho de que a verdade é triste. A verdade veio quando o tempo voltou do ralo e toda a engrenagem começou a funcionar e ouvimos os barulhos da vida, essa coisa fabricada de ferro contra ferro, de metal e plástico.
Então ela abriu o livro e leu. “Talvez o amor nos ensine a sentir como é bom sentir, para dentro e para fora ao mesmo tempo, um coração a falar com outro sem saber de nada, coisas lá deles, coisas de corações. As contas acabam sempre por levar Fernando para junto do amor, mas é um despropósito invocá-lo num escritório tão sério. Ainda se estraga o amor, sujo com a tinta dos carimbos, esmagado sob o mata-borrão. O escritório não é lugar para o amor, há que procurá-lo por onde ele anda.”
Malitzia começou a chorar. Eu sei que ela chorava porque enfim tinha sido esta a experiência, entre um livro que não se pode ler porque a canção grita e porque não há música para ele, e assim nem momento nem sentido. Eu sei que ela chorava porque tudo era uma coisa só: um livro que só sugere e a gente o concretiza inteiro naquilo que somos, o mesmo silencio depois da canção, o mesmo vazio de palavras, tudo é uma dor única, e se afoga com Jeff antes do show. Este é o acorde secreto. A verdade é triste quando o amor está confinado a uma biblioteca.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sexo


Um figo em calda inteiro na boca
O líquido escorrendo e a gente querendo não perder uma gota
Um copo de vinho verde
Alguns copos de vinho verde depois
Um sorriso por dentro que a gente não consegue sorrir pra fora
Uma força no ventre
Uma força bruta no peito
Um imenso transbordando
Escorrendo no corpo e a gente não sabe onde
Nem as horas nem o quadrado do quarto
Nem o tempo mais
Nem onde mais
Só o corpo
O corpo por todos os poros
O corpo
A alma respirando e te dizendo coisas
Que a boca não diz
Não diz porque as palavras não existem
Elas não falam
O corpo
A alma
Sem tempo
Sem lugar
E as veias
As veias
O gosto do figo
O vinho

terça-feira, 19 de abril de 2011

Oração

Noite
não há queixas
Apenas te recebo sem louvores
talvez uma graça apenas
mais das promessas que da tua beleza

Quero travar amizade com a ave de rapina que sobe o rio na tua descida
Que sabe ela de mim, como tu, para esse sobrevoo rápido?
Será ela a trazer os cinzas que depois tu tinges?

Mas não há queixas
apesar dos medos
estes, que tu escondes pelos cantos da casa
angústias atrás das portas
dúvidas sob a cama
Viram todos temores:
sons desconhecidos
sapos em cima do armário
chegadas inesperadas
a aflição por um tigre que não aparece
São aranhas atrás do sofá

Não, não há queixas
espero o sol sem pressa, juro-te
Eu te recebo como a um abraço
um vão oco que me caiba
vazio dessas coisas que se escondem pelos cantos
silencioso de pensamentos

Um gavião pode ser tigre em ti?
(como uma águia e um lobo que só se veem no teu primeiro segundo)
Então aqui ele é augúrio
segue o curso do rio contigo
te anuncia para mim, eu sei

O gavião. Habitará tigre outros sonhos?
Talvez me espere
Talvez eu não o reconheça em ti
Noite
nos barulhos e silêncios
nos sapos
nas aranhas
nos pescadores bêbados
nos animais ruminando na penumbra
No rei.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ivy-Marae

Não sigo os passos dos primeiros habitantes
É em sonho que persigo a terra-sem-males

A Pasárgada do Manuel
Nem faço questão de pau-de-sebo e amizade de rei
Nada de proezas inconsequentes
Ninguém me diagnosticou tango argentino

Quero escolher uma cama não tão larga
E o homem pra se deitar comigo
Então o amor a paz silenciosa e a vontade eterna
E banhos de mar, de rio (pode ser de chuveiro)

Onde o paraíso perdido de uma reles bocada?
Quero tanto mais da maçã!
O beijo suculento do corpo dele pesando em mim
Estou dispensando as sabedorias todas que Ele prometeu

Prefiro meu corpo nu

quarta-feira, 23 de março de 2011

Lenha


Teus sons pela casa me excitam
Teus pés pisando a madeira
Eu queria beijar teus pés
Tuas mãos tilintando as coisas
Eu queria tuas mãos nas minhas coisas

Vais secar o chão e colocar as coisas nos lugares
Eu queria que tu cuidasses das umidades minhas
E me tirasses do meu lugar

Há uma aranha na parede, eu digo
Teus pés vêm pela escada
Tuas pernas
Tu vens inteiro de cenho franzido
(tua contrariedade sempre me excita)
Eu te aponto meus temores
Morta, dizes, está morta

Milhões de anos se passaram
O instinto e esta fome
Que direciona meus olhos e meu corpo na tua direção
São tão selvagens como o medo

Este desejo cru
De te saber este homem
O dono da casa
Eu queria tu dono de mim agora
Mas vou fazer o almoço
as feras estão mortas
o dia nublado e a cama ainda está desfeita

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Nada virtual

Lind@ garot@
estudiosa
não sai pra balada
trancada no quarto
poster da Lady

Alegria de vovó
lê, lê, escreve, escreve
misteriosa nas fotos do perfil

Mas
mamãe ocupada
papai não viu
e o bxu ppaum enguliu!!!

domingo, 26 de setembro de 2010

Catedral


Em cada cidade eu teço um marco

- Aqui foi o dia, aquela vez, quando eu disse

quando tu

aqui foi quando eu senti

Uma criança muito loura correu em direção à mãe

mexendo no meu estômago

Qualquer vestido na vitrine

alguém com o cigarro no canto da boca

e eu penso

penso até doer

a calçada de repente transgressora


Sou a ambulante estrangeira

vendendo perguntas silenciosas

o coração indigente estendido

pedindo explicação


Então as torres da catedral.

(ele dissera pra eu ir ao quarto andar do hotel

como uma criança no ombro do pai

- mas eu sempre me guio pelas alturas)

(eu gosto quando o balão escapa das mãos

e voa voa

seguindo seu caminho de balão)

Três quadras

da urbanidade explicadinha do interior

as gentes e as vitrines simétricas


Sou mesmo pequena

meus longos cabelos crescem quando eu olho as torres

estreitando-se como meus olhos

fico assim um pouco

- se não fossem as torres eu era louca

fecho os olhos, tonteio

a banda militar sertanejando na praça

me viro, casais dançam e fotografam


Por fora estas torres ponteagudas cinzentas

por dentro rosas vermelhas e rococó

(sorrio pensando nele)

Santa Terezinha me observa na penumbra (estética)

- decifra-me

eu me devoro

em segundos de expectativa fria


Eu rezo e ela se enternece

posa para minha fotografia

- obrigada, vou colocar no meu altar

A senhorinha das chaves está falando falando, não ouço

- santa terezinha, meu coração indigente...

- minhas perguntas...
e deposito no altar

Na rua ainda a banda o algodão doce e as criancinhas louras

as imensas portas de madeira trancadas

a senhorinha manda eu ficar com deus
amém


Tenho de voltar pelo mesmo caminho?

escolho o outro lado da rua

gentes e vitrinas simétricas
a catedral agora uma fotografia

o prédio do hotel não tem torres

pra eu me encontrar

nem rosas vermelhas

(sorrio pensando nele)

mas é lá que ergo meu marco:

no quarto

na cama

no meu homem

de braços estendidos pra mim

sábado, 28 de agosto de 2010

Revelação

Eu virei para o outro lado
queria dormir
vi meu terço de contas ainda mornas
o que tenho pra me dizer?

Fechei os olhos
Meu corpo não
O que me escondo?
O livro de Inês sob o terço

Então eu soube
Eu ouvi bem me dizer
Entrou pela minha boca
Estreitando o peito e a garganta

Fiquei ali ouvindo
Entre vibrante e pasma
Querendo o sexo
Uma oração aos pés da cama

Queria caminhar
Invisível pelas ruas
Queria um mergulho escuro e sem fim
Queria tocar o sol

Mas fiquei ali
Me ouvindo
O livro de Inês o terço e a escuridão do quarto
silenciosos
E minha boca sussurrou
Eu amo este homem
Eu amo este homem

domingo, 18 de julho de 2010

Some lonesome valley

Queria poder ter a simplicidade
De cantar Peggy Gordon – minha querida,
Sem olhar no relógio e contar as letras
Minha voz sem pensar em significados

Queria segurar minha xícara de café quente
Diante da vidraça e meus olhos perdidos no horizonte
Ilimitado do tempo
Como nos filmes fazem as moças bem resolvidas

Às vezes me dou o deslumbramento instantâneo
De pensar o que pensaria Simone
E o que sentia Virginia
Entre o enrubescer da ousadia e a pergunta sobre felicidade

Pelo menos não perguntarão da minha
Ninguém pra discutir da minha vã existencialidade
Peggy Gordon (who are my darling?)
Tell to me the very reason

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O poema russo

A palavra sem qualquer evidência
talvez a cor da imagem
os cheiros e sons e sabores que ela provoca

A palavra e suas coisas proteladas
franzindo nossa testa
incomodando os sentidos

Depois tudo segue o rumo
o poema nas vísceras
o resto é impressão

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Isla

O quarto está cheio
de um silêncio que nem tua fala interrompe
um silêncio gritante
vozes de uma auto-explicação
tão ridícula como seria esta fotografia
agora
no quarto cheio de armadilhas
eu aqui com minhas vírgulas e meus entretantos
tu com o ar condicionado e ainda de sapatos

Vai chegar a hora do telefonema
E chaves e falta da agenda
Que fizemos nestas duas horas antes do café?
Enchemos o quarto deste silêncio gritante
Que implora por uma audiência
e aponta pra si mesmo
como a tevê numa madrugada estrangeira
tão desconcertante não entender
o que ele diz de mim

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um pedacinho do bolo

Seis da manhã
a janela me desperta para outro sonho:
a neblina esconde as razões do relógio

Aqui dentro também
serração, o sorriso do gato
Sua tolinha! Você está atrasada.

Eu? Eu sou a errada.
Quero asas
e um pouso suave

Mas esqueça o chá
tenho outros planos
e uma conversa com a senhora do hookah

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Espelho

Entre mim e mim há certas noções
Do espaço entre esta imagem
E a face perdida na rotina

Também não sei se é gozo ou é tormento
mas
Ó, meu Deus, Cecília, esta é minha alma.
E que motivos tem ela para cantar?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um poema para o poeta

Ei, Charles, você foi esperto!
Não quis botar o pau no fogo
e escolheu uma mulher boa
delicada, deliciosa e magnifíca

Cara, deixa eu te dizer -
embora isso nem importe mais, não é mesmo?
Eu já fui dessas
mas agora estou recusando os espertos

Agora chama o garçom
e pede dois do mesmo
acho que ainda não estamos no ponto
de falar sobre o que desconhecemos

quinta-feira, 11 de março de 2010

Poetisa de verdade

Adélia temperando a comida em fogo brando
os líquidos suculentos, os cheiros que dançam na cozinha maculada

Adélia olhando pela vidraça, a mão movimentando a colher primitivamente
e a mão de Deus, as flores, as pessoas, os carros

Quando as narinas e o paladar - e ela prova os sabores - sabem que é chegada a hora
Adélia larga a colher, apaga o fogo, estende a toalha.
Chama a família.
Manda servir.

E vai refletir poeticamente na sala ao lado
os sabores da janela que lhe ficaram na boca

Romance

Eu preciso de romance
digam o que quiserem

Quero margaridas na manhã seguinte
e um olhar terno na próxima noite

Preciso que me leve no topo à noite
para olhar as luzes da cidade
Quero contar as estrelas com quatro mãos

Preciso daqueles bilhetinhos com duas ou três palavras
sem assinaturas, sem desculpas
Nenhum amigo que recomende rosas vermelhas

Apenas verdades românticas

Ninguém que precise de conselhos
apenas me encare, encare-se
olhos nos olhos
fogo nos olhos
leveza nas mãos firmes

e beijos sinceros

Eu preciso de romance
digam o que quiserem

sábado, 6 de março de 2010

There is a pleasure in the pathless woods

There is a pleasure in the pathless woods


Meus olhos fechados em Madison County
mas não é a Imes Bridge que eu vejo
onde as cinzas foram espalhadas

nem lembranças guardadas numa caixa
um livro dedicado a F
nem as velas na borda da banheira
e o vestido vermelho do adeus

os silêncios e as pontes
pretextos para arrastar o tempo

Há um sinal vermelho na estrada
e um instante
que atravessa a vida

A mão segura a maçaneta
chove
no retrovisor embaçado um pêndulo
avisando do tempo

A mão aperta a maçaneta
chora
e um caminho desconhecido e possível
fica pra trás

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Da imprescindível razão de ser

Lá. Bem adiante de onde vêem meus olhos, alheia à cidade. E bem ali, aqui, na sombra do maracujá enroscando-se nas grades da sacada, está a razão. E não é um sapato nem uma casa de pedra encravada na montanha. É tão convexa, estabelecida entre meus dedos, tão e tanto e tudo, que parece que me falta o ar, que tenho fome, e sede, e frio. E tudo o mais parece desnecessário e sem sentido. Dentro de mim ela morre, e mesmo assim flutua e pesa.
O ar continua entrando em meus pulmões, eu acordo de manhã, eu me deito à noite. Mas entre essas coisas que não posso deixar de fazer, tudo é oco. Rejeito todas essas sensações que eram para ser prazer – o gosto de uma castanha e mesmo o som que ela faz ao cair na grama, nos dias de sol em que o vento cochicha entre meus cabelos. E o sol, a grama e a castanha então me dizem na voz do vento – que é só disso que eles sabem: do sangue que corre em minhas veias, do oxigênio, do calor na minha pele, da chuva, da terra. E com eles eu desprezo o que não me basta.
Pra que a mordida na maçã? Quando minha boca reconhece o supérfluo, a língua repele a insipidez. O sabor me fere como um aviso de morte. E a rotina prossegue como um recado: as coisas não estão no seu lugar. Há uma mancha desbotada na mesa, um vazio do que devia estar ali. Há um silêncio no canto da sala, no quarto uma sombra fugidia que se esconde quando eu abro a porta e que pesa em mim como se subisse nos meus ombros. E as coisas viram cinza como a tumba em seu segredo revelado.
Então a língua cala, a pele dorme, o corpo se fecha – pra que azul, roxo, doce, amargo, quente, líquido, arrepio? Posso até sorrir, a tristeza tão esticada na curva que nega a si mesma. E não faz diferença. Noite? É tudo uma questão de simplesmente prosseguir, e engolir a maçã. Sem gozo.
Sem véspera, a boca seca. Sem respiração suspensa, o estômago não contrai pra despertar as mãos. Sem a gota de suor que desce na nuca, sem o frêmito. Nenhum movimento em direção à vida. Nenhuma pergunta estarrecida diante do óbvio. De olhos fechados, meu coração continua, meus pés recebem o que lhes cabe, meu corpo estático caminha.
Amanhã só o sol, medido em horas, em eterna consecução, mesmo o fim marcado em milênios. Mas que diferença faz o tempo a quem não espera? É apenas um som repetitivo escarnecendo. Importa o agora, me dizem os donos da razão. O agora é uma fração do antegozo e só serve aos que saboreiam, mas eu não respondo. Porque estou morta às perguntas e aos sabores.
A dúvida calada em meu peito nem é minha, a sombra do maracujá já me disse tudo. E aquele carro mal estacionado. O prédio. O vazio, uma corda serpenteando as ruas, as beiradas, os centros, minhas pernas, meus pulmões. Eu podia gritar, mas então eu ouviria. E eu não quero me acordar e enxergar de novo que ela morre dentro de mim.